A caminho do Rio, Friendly Fires assume influências brasileiras

Rodrigo Ortega, Jornal do Brasil

RIO - No lugar de batidas eletrônicas modernas, tambores de escola de samba. Em vez da pose blasé e movimentos desajeitados, passistas profissionais, com direito a plumas e paetês. A cena tem se repetido nos palcos de festivais e clubes de rock moderninho na Inglaterra. O responsável pelo carnaval fora de época (e de contexto) é o trio britânico Friendly Fires, que deve estrear em palcos brasileiros em agosto.

O primeiro álbum, que mistura indie rock com disco music, entrou nas principais listas de melhores de 2008, como a da revista inglesa NME e a da americana Rolling Stone. O grupo tem sido aclamado pelas boas composições, como o hit Paris, e pela sonoridade inventiva. Mas a curiosidade do trio extrapolou os limites do pop anglo-saxônico desde o final do ano passado, na concorrida apresentação do festival Reading, quando levaram músicos e dançarinas de uma escola de samba para o palco.

Pouco antes do festival, na época do carnaval de Nothing Hill, em Londres, nós tivemos essa ideia conta o vocalista Ed MacFarlane, em entrevista por telefone ao Jornal do Brasil. Então começamos a procurar percussionistas e acabamos chegando à London School of Samba. Ensaiamos um dia antes e ficou incrível, se encaixou na atmosfera que estávamos procurando. Foi um dos melhores shows da minha vida. A hora em que as dançarinas entraram no palco foi surreal, brilhante.

A escola de samba preferida do músico, com o nome oficial de G.R.E.S. Unidos de Londres, existe há 22 anos na capital inglesa, conta com cerca de 200 músicos e já ensinou mais de 15 mil gringos a sambar em suas oficinas, com informações reunidas no www.londonschoolofsamba.co.uk.

Estamos tocando tanto juntos que já sinto que eles fazem parte da nossa banda exagera o vocalista.

O que poderia ser apenas um momento excêntrico dos jovens ingleses passou a se repetir em outras apresentações e se mostrou definitivo quando o grupo declarou que seu próximo disco vai trocar as batidas eletrônicas quadradas pela influência do samba.

Sempre que descubro algo novo tento incorporar no que estamos fazendo justifica.

MacFarlane conversou com o Jornal do Brasil um dia antes de terminar a gravação do próximo single da banda, Kiss of life, que sai em agosto. A nova faixa já mostra a banda imersa nessas novas influências brasileiras.

É um passo à frente de Jump in the pool, faixa do último disco que já busca essa sonoridade. É baseada no ritmo de samba tradicional e é muito eufórica. É uma das melhores coisas que já escrevemos garante o líder do Friendly Fires.

O produtor é Paul Epworth, o mesmo de artistas britânicos como Kate Nash, Bloc Party, Primal Scream e Maximo Park, que também trabalhou na estreia do grupo. Mas MacFarlane promete que eles não vão se repetir.

Nós não estamos simplesmente fugindo da disco music, mas só não queremos nos tornar uma banda de batidas repetitivas e previsíveis. Queremos que as coisas se tornem muito mais interessantes.

Os Friendly Fires vão poder conhecer o berço de suas novas influências musicais.

Ainda não está 100% confirmado, mas temos duas datas de shows para agosto deste ano, uma no Rio de Janeiro e outra em São Paulo informa o agente da banda, Phil Morais.

Os ingleses, entretanto, não têm a pretensão de mostrar o samba aos seus criadores.

Nós não queremos levar esses percussionistas e dançarinas para o palco no Brasil, porque não funcionaria adianta o vocalista, admitindo que é um novato em relação ao tema. Conheço o carnaval principalmente por vídeos no Youtube. Não sei muito sobre música brasileira e, para ser honesto, este é exatamente o motivo da minha atração por ela: eu me sinto como uma criança descobrindo coisas novas, é excitante para mim. Sei que há muita pobreza no Brasil e que eu tenho uma visão romântica e idealista de como é o país.

Presença em anúncios

Para ele, é a mesma sensação de que fala a música Paris: o fascínio de se imaginar em outro lugar que você não conhece, e ter uma ideia romantizada sobre como será ao chegar lá.

O músico fica surpreso ao saber que uma de suas canções (o single Skeleton boy) está sendo usado no Brasil como trilha de um comercial de desodorante. Mas a presença dos Friendly Fires em anúncios não é novidade: suas faixas já foram ouvidas em propagandas dos consoles de games PlayStation e Nintendo Wii. O vocalista se desculpa:

No estado atual da indústria da música, as bandas não conseguem fazer dinheiro vendendo discos. Espero que os brasileiros entendam que temos que fazer esse tipo de coisas para poder continuar gravando e fazendo shows.