Cantora nascida no Alasca encara repertório barroco e clássico

Rodolfo Valverde, Jornal do Brasil

RIO - Grande voz do barroco e do bel canto italiano, a mezzo-soprano Vivica Genaux é o destaque do ciclo Haydn & Händel, em curso na Sala Cecília Meireles, com a Concerto Köln, hoje, às 20h. Nascida no Alasca, a americana é uma cantora de extraordinária força expressiva e dona de um belo timbre, apurado por uma técnica de extrema solidez, premiada com o Grammy de 2005 pela gravação da ópera Le nozze di Figaro, de Mozart, com René Jacobs.

Com domínio do repertório operístico de Händel, contabiliza 45 personagens, incluindo 25 papéis masculinos escritos para os célebres castrati do século 18. Em seu concerto no Rio, Vivica se une a uma das principais orquestras europeias de instrumentos de época, voltada, desde a sua fundação, há 24 anos, para a execução estilística e historicamente informada do repertório barroco e clássico. A Concerto Köln, sediada na cidade alemã homônima, tem mais de 50 gravações, regida por luminares do repertório antigo como René Jacobs, Louis Langrée e Marcus Creed. Juntos, interpretam árias de Händel, como a célebre Cara Speme da ópera Giulio Cesare, e de Hasse, além de obras instrumentais handelianas como a Suíte nº 1 da Música aquática. Nesta entrevista ao Jornal do Brasil, ela fala de sua (bela) obra.

Quais são as diferenças entre cantar o bel canto italiano e o repertório barroco?

- Há mais similaridades do que diferenças. A técnica do bel canto ensina a focar no desenvolvimento da extensão vocal, e a voz é a parte mais proeminente. A extensão é ampla. As diferenças são o uso do tom natural na música barroca, o que não há no bel canto tantas vezes. E há o fato de que a maioria do bel canto é cantada quase meio-passo mais alto do que no original. É mais desafiador, enquanto as orquestras barrocas são mais flexíveis.

Como explica seu tipo de voz?

- Tecnicamente sou rotulada como lírica coloratura mezzo-soprano , o que pode significar muita coisa! Minha voz parece ir bem em papéis de castrati, particularmente os jovens, heróicos como Sesto em Giulio Cesare. E na maioria dos personagens de Rossini meio heróis, meio heroínas. Gosto do fato de minha voz ser facilmente reconhecível. E de quem comenta que minha ela é como chocolate quente! Gosto muito dessas imagens!

Você começou a carreira cantando Rossini e bel canto. E agora se dedica ao barroco. Como escolhe seu caminho?

- É meu caminho que me escolhe. Meu primeiro papel foi a Isabella de L'Italiana in Algeri, de Rossini. E permanece como uma das favoritas. Não tinha experiência com óperas, mas Isabella se parecia com os papéis dos musicais americanos que havia interpretado. Poder ter atuado com esse repertório vez após outra com diferentes condutores e colegas fez eu me desenvolver. Após três anos, me senti pressionada a me arriscar. Até que alguém indicou cante Hasse! Não fazia ideia de quem era, mas fiquei apaixonada pelo barroco.

E você pretende expandir ainda mais o repertório?

- Gostaria de fazer outra ópera contemporânea. Há ofertas, mas às vezes o tema é tão desanimador que é difícil aceitar. Outra coisa é levar a música de Hasse ao público.

Quais cantores são referências?

- Admiro Marilyn Horne, a cor da voz e o que ela é. Gosto de Theresa Berganza, pela elegância. Fiorenza Cossotto é incrível pela amplidão do repertório que canta, e pelo fogo que sai de sua performance.