Adaptação para o texto clássico de Boccaccio aclimata a picardia

Macksen Luiz, Jornal do Brasil

RIO - A adaptação de Elísio Lopes Júnior para a caudalosa obra do italiano Giovanni Boccaccio, em cartaz no Teatro das Artes, resultou num bem-sucedido jogo de encaixe, no qual as peças ganharam sopro vagamente nordestino e ar de proximidade que valorizam o original e aclimatam sua picardia. A versão busca, a partir dos elementos construtivos dessa obra tão generosa em sua capacidade de se desdobrar em múltiplas observações, sequência urdida de situações sobre a moralidade hipócrita e a religiosidade ingênua que encobrem as pulsões humanas. Com linguagem desabrida e trama ardilosa, os personagens se entregam aos seus próprios impulsos, num ardor de realizar desejos, mal encobertos pelos preceitos sociais. Na comédia, o instinto e a inteligência, a luxúria e a repressão, a fogosidade e a falsa contenção desvendam a vida pulsante por detrás das mentiras da convivência.

Otávio Müller empresta à versão de Decameron ambientação festiva de feira, em que se exibem artimanhas e falcatruas do jogo social. Como saltimbancos, os atores marcam o ritmo com sonoridade arrebatada, conduzindo a ação como intérpretes de representação livre e popular. O diretor se baliza por essa tradição popular, sem cair na tentação do popularesco e muito menos na vulgaridade. A encenação vive da vitalidade do texto e da sua adaptação coerente e fiel ao espírito da obra de Boccaccio e sedutoramente maliciosa e crítica na transposição para nossa geografia cultural.

O cenário de Vera Oliveira, utilizando praticáveis e guirlandas de luz, balaios de frutas e lençóis, é palco adequado à agilidade da cena. A iluminação de Paulo Denizot um tanto sombria e ainda operada com insegurança torna o quadro escuro e tem dificuldades em seguir a nervosidade do espetáculo. A trilha de Caíque Botkay e as músicas de Zéu Britto conferem clima sonoro que se enquadra na alegria da montagem. Os figurinos de Cassio Brasil são cuidados.

Hossen Minussi e Jô Santana têm presenças menos expressivas no conjunto de intérpretes. Isabel Lobo não explora inteiramente a brejeirice esperta da Tetéia. Cláudia Borioni, como a amante fogosa; e Bel Kutner, como a donzela ansiosa; vestem bem os seus personagens. Fabiana Karla tem atuação que serve aos desejos ardentes da personagem. Zéu Britto expande, até ao perigoso limite da chanchada, as peripécias do marido traído. Marcos Oliveira explora com eficiência sua construída figura caricatural. George Sauma se mostra endiabrado e à vontade, relembrando o melhor dos tradicionais cômicos populares brasileiros.