Iggy Pop lança CD inspirado no jazz com versão para Jobim & Vinicius

Marco Antonio Barbosa, Jornal do Brasil

RIO - A primeira reação de muita gente ao saber deste novo projeto de Iggy Pop foi de... escárnio e incredulidade. Ao anunciar que seu próximo disco traria canções mais tranquilas, com algumas harmonias de jazz , o cantor, de 62 anos, provocou espanto. Por aqui, a coisa reverberou ainda mais ruidosamente ao saber-se que o álbum Preliminaires traria uma versão para How insensitive (a Insensatez de Jobim & Vinicius, com a célebre letra em inglês de Ray Gilbert). Quer mais espanto? Saiba pois que a nova safra de composições de Iggy foi inspirada na obra do escritor francês Michel Houellebecq, mais especificamente o romance A possibilidade de uma ilha. Iggy Pop, depois de velho, voltando-se ao jazz e à bossa nova e assumindo ares (pseudo?) intelectuais?!

Bem. O cantor nascido como James Newell Osterberg Jr. e considerado amplamente como o padrinho espiritual da geração punk se declarou, há pouco, farto de escutar idiotas empunhando guitarras fazendo música ruim . Ora, este estado de coisas foi, em grande parte, gerado pela influência do próprio Iggy que à frente da seminal banda The Stooges (nos anos 60, reagrupada nesta década) e em carreira solo, forneceu o padrão (sonoro e comportamental) para o dito rock alternativo que veio depois. Se ser punk é contrariar as expectativas e chocar a audiência, sem dúvida Iggy mantém-se tão (ou mais) punk do que antes. Ainda que seja num disco com pouco rock e muita idiossincrasia. Mesmo porque os últimos esforços do cantor numa veia roqueira mais ortodoxa (o solo Skull ring, de 2003, e The weirdness, gravado com os Stooges em 2007) foram decepcionantes e estéreis.

O jazz a que o cantor se referia antes do lançamento não tem muito a ver com uma visão acadêmica do estilo. Iggy tinha em mente a música que se ouve em Nova Orleans, com seu groove bêbado e seus metais proeminentes. Já entreouvida na internet (há um clipe no YouTube), King of the dogs foi comparada ao estilo de cantores como Tom Waits, que também bebem na mesma fonte. Soa um tanto caricato, próximo do pastiche. Ou mesmo do autopastiche, já que é impossível não lembrar da referência a I wanna be your dog, clássico do primeiro disco dos Stooges (1969). A música parece surpreendentemente sincera, mas o espanto ao ouvir Iggy Pop (cantando bem) contra um pano de fundo sonoro como esse desvia a atenção.

E Iggy cantando Tom Jobim, meu Deus, como teria ficado? How insensitve ganha um arranjo minimal, que escapa por pouco da bossa de elevador, ganhando insuspeita solene interpretação do cantor (que demonstra ter muito respeito pela canção). Aliás, não falta respeito na postura do cantor ao longo do disco, que se mantém na maior parte das faixas num registro sutil. Ainda que seja difícil aos fãs de longa data levar a sério Iggy cantando o standard francês Les feuilles mortes em cima de um arranjo meio lounge. Ou deixando seu lado mais sensível aflorar nas delicadas I want to go to the beach e Spanish coast.

Não é que falte sinceridade às performances. É que alguma coisa indefinível não parece encaixar. Na verdade, Preliminaires é um disco... estranho. Iggy dispensou a ajuda de uma banda de verdade e convocou o pouco conhecido (ao menos por aqui) produtor Hal Cragin, que tocou quase todos os instrumentos e coescreveu com Iggy todas as canções inéditas. Só que a decisão não trouxe coesão ao som do disco, e sim um contraste entre as faixas mais introspectivas (que poderiam ter arranjos mais elaborados, com cordas e metais de verdade) e os momentos mais roqueiros (que passam longe da inspiração dos tempos de outrora).

Então, o rock tonitruante de Nice to be dead e a sonoridade new wave de Party time (outra possível referência ao passado, acenando a Funtime, de 1977) acabam parecendo deslocados dentro de um disco que seria mais coerente se mantivesse como padrão o clima das músicas mais lentas. Ao procurar vias alternativas, acaba desembocando em lugares interessantes em She's a business que, com seu bom riff blueseiro, comparece no disco também como Je sais que tu sais, versão bilingue com participação da francesa Lucie Aimé. E ainda rende também o folk lo-fi de He's dead, she's alive, momento mais cru do álbum, baseado no mesmo riff (só que agora ao violão).

Ou seja, muito barulho por quase nada. Não é um disco de jazz, muito menos um disco de bossa nova. Há ideias interessantes aqui, mas que não ganham o desenvolvimento devido. Os cultores do Iggy punk sairão decepcionados com a falta de sujeira. E os curiosos que esperavam um intrigante trabalho de crooner, compatível com a expectativa gerada, se frustrarão. Em sua virada tardia rumo à maturidade , Iggy, ironicamente, não passou das preliminares.