Em Cannes, 20 produtoras brasileiras participam do Producers Network

Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

CANNES - Oficialmente é À deriva, novo longa-metragem de Heitor Dhalia (O cheiro do ralo), que vai representar o Brasil no 62º Festival de Cannes, que será aberto na próxima quarta-feira com a projeção do desenho animado Up Altas aventuras, na mostra paralela Um Certo Olhar. Mas, correndo por fora no espaço extracurricular do maior evento cinematográfico do planeta, comumente conhecido como mercado, dezenas de outros títulos brasileiros, muitos deles ainda em forma de roteiro, estarão dando mostras do potencial do cinema nacional. Vinte companhias brasileiras, entre produtoras e empresas de infra-estrutura em produção e pós-produção de filmes, participarão do Producers Network, encontro em que organizações de diferentes países negociam seus projetos.

O intercambio entre os brasileiros e as delegações estrangeiras é intermediado pelo Cinema do Brasil, programa criado pelo governo brasileiro para fortalecer o produto nacional no exterior. Durante seis dias também serão realizadas mesas de discussão sobre temas relevantes da indústria, como aquisições e direitos, coproduções, financiamentos de filmes e fundos de fomento, entre outros tópicos.

Papel estratégico

O número de empresas que participam do Producers Network esse ano triplicou - informa André Sturm, presidente do Cinema do Brasil que, pela quarta vez desde sua criação, em 2006, marca presença em Cannes. É um lugar privilegiado, onde se reúnem produtores seniors, gente que já tem experiência no mercado. O programa fez uma parceira com o marché (mercado) do festival para ampliar a participação brasileira na seleção de produtores.

A bancada de empresas brazucas em Cannes este ano acomoda desde produtoras com alguma estrada lá fora, como a Gullane Filmes, que levantou O ano em que meus pais saíram de férias, de Cao Hamburger, indicado ao Oscar de Filmes Estrangeiro de 2007. Ou como a novata (no departamento de longas-metragens) BossaNovaFilms, que até 2008 estava focada na TV e na publicidade internacionais.

Além de promover a exibição de produções já prontas, como Chega de saudade, de Laís Bodanzky, e Encarnação do demônio, de José Mojica Marins, visando à venda para o circuito estrangeiro, a Gullane negociará projetos em andamento, como As melhores coisas do mundo, novo trabalho de Laís, em fase de pós-produção, e Brincante, de Walter Carvalho, ainda em desenvolvimento.

Cannes é a melhor oportunidade para quem deseja atuar no mercado internacional atesta Fabiano Gullane, que esteve no festival pela primeira vez acompanhando Carandiru (2003), na competição. Em poucos dias se consegue encontrar todos os principais players da indústria internacional, é muito produtivo. Cada ano tentamos aprimorar nossa participação, escolhendo melhor quais reuniões e em quais eventos participar. A importância de Cannes para o fortalecimento da Gullane e das companhias brasileiras cresce a cada ano.

Embora cinema (em longa-metragem) seja uma divisão recente da BossaNovaFilms, a produtora está levando para Cannes uma série de projetos no formato, em diferentes fases de realização. Entres estes estão os documentários Cresci na Mangueira, de Georgia Guerra Peixe, fruto de uma parceria com Portugal, do qual já se tem um primeiro trailer; Tropicália, de Marcelo Machado, nascido de uma associação com a O2 de Fernando Meirelles e a Record Filmes, e que agora procurará parceiros no exterior, e o média-metragem Diadorim e Teobaldo, de Willy Biondani, a partir dos personagens criados por Guimarães Rosa, já em finalização, também em busca de sócios no exterior.

O papel de Cannes é estratégico. O maior benefício dos encontros promovidos pelo festival é permitir que nós produtores conciliemos negociações de uma série de projetos, em estágios diferentes, num mesmo período de tempo analisa Denise Gomes, sócia e diretora executiva para a área de entretenimento da BossaNovaFilms, falando com a experiência de quem já fez o mesmo pelos produtos dos outros segmentos da empresa em feiras e outros festivais internacionais, como o de Berlim, na Alemanha.

O Producers Network também está aberto a empresas de serviços cinematográficos, como a Teleimage, que pós-produziu À deriva.

O cinema brasileiro cada vez mais ganha presença internacional e, portanto, é importante que acompanhemos de perto esse crescimento. Esta será nossa sexta passagem por Cannes contabiliza Jerome Merle, da Teleimage, que co-produziu e pós-produziu A festa da menina morta, de Matheus Nachtergaele, exibido na mostra Um Certo Olhar do ano passado Estamos levando nossa expertise em produções internacionais, como O banheiro do Papa (2003), coprodução com o Uruguai, e All tomorrow's parties (2003), de Nelson Yu Lik-wai, que depois veio fazer no Brasil Plastic City.

A programação do Producers Network desse ano prevê também um dia em torno dos brasileiros. O Spotlight Brasil está marcado para o dia 14 e dará destaque às produtoras BossaNovaFilms, Zencrane (de Claudia Natividade e Marcos Jorge, de Estômago), Gullane, Dezenove (que levará Os famosos e os duendes da morte, primeiro longa de Esmir Filho) e Conspiração Filmes.

Na abertura do foco Brasil, os organizadores farão uma apresentação dos participantes brasileiros e haverá uma mesa com informações sobre como produzir no país informa Sturm.