Cannes chega à 62ª edição: muitas estrelas em busca da Palma de Ouro

Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

CANNES - Para um festival que sempre abriu espaço para novos talentos, Cannes chega à 62ª edição com um peculiar gosto por grandes e reconhecidos autores. A competição do maior evento cinematográfico do planeta, que revelou ao mundo novidades como o romeno Cristian Mungiu (4 meses, 3 semanas e 2 dias) e o israelense Ari Folman (Valsa com Bashir), só para citar exemplos recentes, está carregada de pesos-pesados do cinema de prestígio, velhos habitués da maratona. Embora ainda esteja aberto a novidades o programa de 2009 será aberto nesta quarta-feira com a projeção de Up Altas aventuras, o primeiro desenho animado em 3D dos estúdios Disney/Pixar este ano Cannes decidiu estender seu tapete vermelho para mestres em sua área de atuação. Muitos deles já disputaram entre si pela Palma de Ouro em mostras anteriores, como Lars von Trier (Antichrist), Pedro Almodóvar (Los brazos rotos) e Alain Resnais (Les herbes folles) e Quentin Tarantino (Bastardos inglórios).

Grandes autores e filmes

O clima de recessão mundial e arrocho econômico não têm, a princípio, nada a ver com tal configuração:

Grandes autores fazem grandes filmes. Então, este ano é normal encontrar nomes como o de Almodóvar, Jane Campion ou Marco Bellochio na seleção disse Thierry Fremaux, diretor artístico do evento, quando revelou a lista à imprensa. Ao longo dos últimos 60 anos, Cannes se acostumou a acomodar filmes de (Ingmar) Bergman, (Federico) Fellini, (Akira) Kurosawa, etc. A tradição está respeitada.

A proposta é válida, mas gerou distorções geopolíticas gritantes. A produção asiática domina o páreo deste ano, com filmes de Tsai Ming-liang (Face), Johnnie To (Vengeance), Park Cha-wook (Thirst), Lou Ye (Spring fever), Brillante Mendoza (Kinatay). Por outro lado, não há um título sequer vindo da América Latina. A contribuição americana, presença forte nas últimas décadas, está reduzida à participação de Tarantino e Ang Lee (Taking Woodstock), que é de origem taiwanesa.

A figura do auteur marca território também no pacote de sessões especiais não competitiva estão lá o chileno Alejandro Amenabar (Agora), os americanos Terry Gilliam (The imaginarium of Dr. Parnassus) e Sam Raimi (Drag me to hell) e o francês Michel Gondry (L'epine dans le coeur) e contamina as seções paralelas mais importantes, como a Um Certo Olhar, onde está acomodado À deriva, do brasileiro Heitor Dhalia.

Nesta seção, a oferta é mais global, por assim dizer. E acolhe o japonês Hirokazu Kore-eda, o iraniano Bahman Ghobadi, o francês Alain Cavliar e o russo Pavel Loungine, e outros diretores da Colômbia, Israel e Grécia. É uma forma de minar a fama de depósito de dejetos da competição oficial que o Um Certo Olhar desenvolveu ao longo dos anos:

A mostra foi criada para mostrar um grande número de filmes de qualidade e, de fato, alguns serão julgados como material digno da competição principal afirmou Fremaux. No ano passado, Tokyo sonata, de Kiyoshi Kurosawa, e Hunger, de Steve McQueen, tinham qualidade para disputar a Palma de Ouro. O papel do programador é encontrar o melhor lugar para colocar um filme. Quando convido uma produção para uma projeção fora de concurso não quer dizer que a considero sem valor de competição. Eu apenas acho que este será o melhor destino para ela.

Apesar do recorte autoral, a programação de Cannes 2009 contém elementos capazes de repetir as melhores polêmicas da gestão de Fremaux, no cargo há oito anos. Há chances de controvérsia política na participação do chinês Lou Ye, que exibiu Summer palace há três anos na competição sem notificar o governo de seu país, e que está de volta com Spring fever, realizado longe da vista dos censores da China.

Outros provocadores estão de volta à Croisette, como o francês Gaspar Noe (Irreversível), que retorna com Enter the void, o dinamarquês Lar Von Trier (Os idiotas), em competição com uma história de terror, e o coreano Park Chan-wook (Oldboy), que exibirá Thirst, um thriller vampiresco.