Artigo: "E agora? Como vão surgir novos ídolos?"

Mario Marques, Jornal do Brasil

RIO - Antes dos escarros da gripe suína, das overdoses de cocaína até a morte dos especuladores de Wall Street, muito antes mesmo de Ahmadinejad ser convidado pelo Lula para rasgar nosso céu com suas sandices antissemitas, antes disso tudo, um dilúvio sem proporções afundava a indústria fonográfica. A partir do fim dos anos 90, executivos começaram a perder seus cargos, lojas e redes fecharam, as vendas caíram, os ídolos sumiram, a renovação artística foi definitivamente enterrada e a molecada passou a se lambuzar de arquivos digitais. Perdidas, retardando o cerrar de portas, as multinacionais e as gravadoras brasileiras buscam desde então desesperadamente uma saída para uma realidade inevitável e sombria: a curto prazo não se venderá mais música em nenhum formato. Ficar apontando os culpados e requentar razões velhas não cabe aqui agora. O fato é que o mercado fonográfico, de uma forma geral, está na UTI faz tempo. Shows, DVDs, discos, tudo está declinante. Para os iniciantes, ou novos, é o pior que poderia acontecer. Não surge gente nova e por conseguinte também não canções novas, propostas novas, conceitos novos. Na verdade não é que não surja gente nova. O que acontece é que esse pessoal não sabe como se divulgar. Pior: atualmente, falta profissional nessa linha. Assessores estão também perdidos.

Junto com a indústria fonográfica morreu também o assessor de imprensa de música como conhecíamos. Boa parte migrou para outras áreas do jornalismo e os que ficaram mantêm-se pensando na divulgação dos anos 80, concentrada no papel. Não se acha disponível por aí um divulgador de internet. Um sujeito que passe 24 horas por dia telefonando para blogueiros influentes, mandando-lhes música, dando-lhes prestígio, tratando-os como eram tratados os jornalistas importantes pré-internet. São esses caras que estão ditando o que vai acontecer. Mas ninguém chega perto deles. Insistem em mandar CDs, tentar marcar entrevistas, enviar releases, o mesmíssimo expediente (atrasado) do passado, para os jornais e revistas. Não há um rolo compressor virtual, que crie uma base, um relacionamento. Tremo de nervoso quando querem me apresentar um artista novo. Porque sei que não vou poder ajudar em nada. Assim como nenhum outro jornalista da área de música. Revistas especializadas fecharam, rádios perderam a influência. Tiraram o tapete (vermelho) do divulgador. E ele se recusa a abandonar o papel e partir para o corpo a corpo com o blogueiro e os sites. É batalha de guerra mesmo. Viral. Coisa de espalhar um produto em mais de 10 mil lugares diferentes. Só assim voltaremos a criar um mercado fonográfico. Está na mão deles. Ou não.

A coisa está feia. Mais feia do que a Susan Boyle. Um amigo músico que fazia 10, 15 shows por mês agora não toca em mais de dois. Uma amiga de gravadora, cujos produtos batiam a marca de 50 mil cópias com muito esforço, agora não passam de 3 mil. É coisa chocante. Apesar disso tudo, as multinacionais seguem otimistas. Mas, por trás dessa animação, há um desespero grande. A ideia das matrizes é manter o fôlego, enxuto, até que algum geniozinho apareça e crie um formato que ponha a enxurrada de arquivos digitais de volta ao jogo. Não é nada, nada fácil.

Recentemente sentei-me à mesa com um ex-executivo de gravadora. Que traçou um futuro muito mais negro do que simplesmente o fechar de portas. Quem vai cuidar do acervo? Quem vai cuidar da memória da música brasileira? Não é barato, não. Bingo.

Na última e mais patética das tentativas, algumas gravadoras, como a Sony, criaram um departamento de vendas de shows, a única receita que ainda existe neste combalido mercado. Mas a tal Day One não vingou e quem queria abocanhar um tanto da renda dos shows dos artistas se deu mal. Os artistas estão quebrando.

É aí que entra, de novo, o profissional que está faltando o divulgador de internet. Não se faz mais show no Brasil sem uma poderosa estratégia de internet. O cinema já descobriu isso, a TV já descobriu isso, até o teatro já descobriu isso. Mas a música... são as mesmas pessoas fazendo o mesmo trabalho dos anos 80/90, época em que faziam parte dos planos de marketing viagens internacionais, festas regadas a vinhos e canapés, hotéis caríssimos, tudo da melhor qualidade. Sem dinheiro em caixa, pobrinhas, as gravadoras não conseguem fazer mais nada. E agora, sem este capital, expõem claramente sua incompetência na área artística para contratar. E se não sabe contratar não vai saber divulgar. É lógico que não.

A situação atual me faz recordar uma passagem desastrosa em 2003 como produtor de uma então nova banda carioca. Em determinado momento, um dos integrantes chega para mim e faz o inacreditável pedido:

Mario, não marca show esta semana, não, por favor, tá? Tô duro.

O mercado ruindo e eu lá, esperançoso. Esperança que, como pode-se ver, não era compartilhada.

Alguns podem ter reparado que esta coluna esteve ausente na semana passada, consequência de um piripaque provavelmente causado pelo meu Blackberry frenético. Deixei meu novo bairro para conhecer por dentro a Clínica São Vicente da Gávea, numa turnê que não me deixou lá muito à vontade. Obrigado aos que telefonaram. Ainda não foi desta vez.