Após cinco anos, trio californiano Green Day volta menos ousado

Braulio Lorentz, Jornal do Brasil

RIO - Quando o trio californiano Green Day associado ao punk pop e suas poucas variações anunciou que lançaria uma ópera rock, o estranhamento foi geral. Construído com riffs grudentos, letras politizadas, faixas de quase dez minutos e pepitas radiofônicas pós-grunges, American idiot (2004) se transformou no segundo álbum mais bem-sucedido do grupo. Mais de 14 milhões de CDs vendidos depois, a banda retorna com 21st century breakdown e proposta semelhante à de cinco atrás.

O oitavo disco da banda narra os percalços de Christian e Gloria, dois adolescentes punks apaixonados e errantes. Os três atos (Heroes and cons, Charlatans and saints e Horseshoes and handgrenades) são condensados em 71 minutos e 18 canções. Menos ousadas do que no trabalho anterior, as músicas mal ultrapassam a marca dos cinco minutos e raras vezes fogem da pegada punk de Dookie (1994), com 18 milhões de cópias vendidas.

Na produção, sai Rob Cavallo (Goo Goo Dolls e My Chemical Romance) e entra Butch Vig (baterista do Garbage e produtor de trabalhos de Nirvana e Smashing Pumpkins). A troca explica o porquê de as músicas soarem mais encorpadas do que em American idiot e a falta de hits assobiáveis como Boulevard of broken dreams e Wake me up when september ends.

O rótulo hardcore de arena é justificado pela estrutura de músicas como a faixa-título, com letra desesperançosa (Minha geração é um zero/ Nunca consegui ser herói da classe trabalhadora) e arranjo que remete ao power pop do fim dos anos 70 com solo de guitarra à la Queen.

Por mais que existam respingos do projeto paralelo Foxboro Hot Tubs, que lançou disco no fim de 2007, o rock garageiro old school entra com porções nada generosas na receita. Menos mal. Soar como cover da banda sueca The Hives em Horseshoes and handgrenades é muito pouco para o Green Day.

Por mais que tente florear com inclusão de pianos e violinos no início de ¡Viva la gloria!, a música acaba em ritmo de cabaret emo.

Nas canções em que procura se distanciar da simplicidade punk roqueira explorada pela banda há mais de duas décadas, o disco começa a engrenar. Peacemaker é timidamente cigana e tem arranjos vocais que, de certo modo, escapam dos padrões do trio. Last night on earth soa como uma pérola perdida do início da carreira de uma banda britpop que imita Beatles. Last of the american girls carrega em seus versos o mesmo sol que brilha para Weezer e The Cars.

Com um CD mais enxugado e sem medo de se arriscar, o Green Day poderia ter lançado um sucessor tão três estrelas quanto American idiot.