Domingos Oliveira estreia adaptação para o livro "Elite da tropa"

Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil

RIO - Desde sua estreia (no cinema), com Todas as mulheres do mundo, em 1966, os embates psíquicos e físicos que acompanham as tramas de Domingos Oliveira, no teatro ou no cinema, se dão no campo dos relacionamentos amorosos. Suas comédias cotidianas, recheadas de questionamentos e reflexões filosóficas, metafísicas e existenciais agora mudam de foco, ou melhor, de mira. Em Confronto, peça que estreia sábado no Espaço Sesc, em Copacabana, o diretor regula o calibre para tratar da violência urbana, mas sob uma incomum ou pouco explorada perspectiva. Saem de cena os tiroteios da guerra urbana entre policiais e bandidos e abre-se a cortina para a ação das cúpulas de segurança do governo e da polícia.

Numa livre adaptação para os palcos da segunda parte do livro Elite da tropa - O dia em que a cidade beijou a lona, de Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel, a encenação apresenta como personagens o comandante da PM, o chefe da Polícia Civil, o governador, o secretário de Segurança e os chefes das diversas facções do tráfico. Embora seja uma combinação de personagens inusitada para o universo do dramaturgo, não faltam justificativas para o trabalho.

Talvez a maior preocupação nacional seja a segurança. Muitos diretores de cinema já falaram sobre o assunto com maus, ótimos e excelentes filmes. No entanto, o teatro praticamente ainda não tocou nesta ferida salienta Domingos Oliveira. E é no teatro que pode ocorrer o debate maior. O teatro é o reflexo de um país e o último reduto da sua consciência crítica. Talvez nele seja possível falar da violência sem, de nenhum modo, defendê-la. Falar da segurança e de todo o cruel sistema da impunidade do crime de maneira lúcida e construtiva e, até por que não dizer, com certo humor.

Com texto assinado por Soares e Márcia Zanelatto, Confronto vislumbra interpretar os processos que levam a sociedade a manifestar sinais de violência e corrupção. Sem a intenção de descrever e detalhar atos ou acontecimentos específicos, a história, baseada em fatos reais, se atém aos personagens, seres humanos comuns.

É um trabalho muito diferente do universo explorado pelo Domingos durante sua carreira, mas o convenci e expliquei a ele que iríamos tratar de seres humanos e de seus sentimentos lembra Soares, também autor do sucesso literário Cabeça de porco. Pedi para que olhasse para dentro, como faz nos casos em que retrata as relações amorosas. Domingos percebeu que poderia escrever sobre o assunto e toda concepção dramatúrgica foi definida por ele, que é um mestre de grande sensibilidade.

Muito além do que se vê

Personagem central do texto, Luiz Felipe, o secretário de Segurança, é um homem limpo, bem-intencionado, humanista e intelectual. Com renome internacional, o especialista se apoia, convicto, na eficiência do trabalho que realiza a duras penas. Mas, consciente das dificuldades e dos vícios do povo brasileiro, ele enfrenta, confiando piamente no Governo, uma inglória rotina de confrontos com oficiais corruptos, deformações do sistema, além, é claro, das facções criminosas.

Descortinamos os bastidores do poder e das tomadas de decisões Soares, que conclui: Uma realidade desconhecida para grande parte da população. Por mais que sejamos críticos da corrupção, não nos damos conta de quão grave ela é no cotidiano.