Animação: especialistas internacionais aprovam criatividade brasileira

Braulio Lorentz, Jornal do Brasil

RIO - O otimismo deu o tom na abertura do primeiro workshop de formação para projetos de séries de animação, aberto nesta segunda-feira no Hotel Pestana, em São Paulo e promovido pelo Programa Internacional de Capacitação do Brazilian TV Producers (programa de exportação de conteúdo audiovisual) até sexta-feira. Especialistas internacionais no assunto gostaram do que viram da produção brasileira e aproveitaram a manhã para dar valiosos conselhos aos artistas locais.

Entre os 64 projetos inscritos (25 foram selecionados), não há produção que não tenha jeito. São apenas trabalhos crus. Todos têm uma imensa capacidade de ir para o mercado internacional e atingir um novo nível opinou a americana Heather Kenyon, consultora especializada em animação.

A produtora canadense Cathy Chilco enfatiza a originalidade das animações brasileiras que viu.

O produto já existe, a questão é como apresentá-lo para os mercados internacionais explica Cathy. No Canadá, todos fazem um pool de recursos. Há apenas um estande representando o país nas feiras. Não acho que os brasileiros devam adotar a via do baixo custo.

O pessimismo chega na hora de falar da crise financeira. Para Heather, que começou a carreira na Hanna-Barbera e foi diretora do Cartoon Network, os animadores têm razão de reclamar. Nos EUA, as três principais redes que escoam as séries do ramo (Disney, Nick e Cartoon) tendem a apostar cada vez mais nos programas em live action.

O Cartoon tem apenas dois novos desenhos animados prestes a estrear exemplificou Heather. Todos querem fazer um megahit como Bob Esponja ou Pokemon, mas não dá para ter certeza de qual vai ser a reação das crianças.

Simples é bom

O mercado de DVD para o público pré-escolar, relata o produtor executivo e roteirista americano Josh Selig (ex-Vila Sésamo), é outro que tende ao colapso.

Quem decidir tentar essa área por causa de dinheiro é melhor nem começar aconselhou Selig. Levo anos para botar um programa no ar. No nosso escritório há um cartaz em que está escrito Simples é bom . Todos os sucessos dos últimos cinco anos vieram de boas ideias. As emissoras não querem saber quem é você ou de onde você veio. Lazy Town é da Islândia.

Ao resumir o ritmo de produção do segmento, a produtora francesa Emmanuele Petry não precisou de muito tempo para pensar.

É lento diz. As emissoras demoram a dar uma resposta e os projetos se acumulam. A rede francesa TV1 me disse que vai trabalhar só com um projeto em 2010.

Chefe do departamento de desenvolvimento e coprodução da Milimages, Emmanuele reconhece o esforço dos profissionais brasileiros, mas faz ressalvas:

Alguns copiaram tendências internacionais. Pegaram o que já existia e colocaram um pouco de ecologia, algo do Brasil.

Representante da classe brasileira no debate, Kiko Mistrorigo, fundador da produtora TV Pinguim, acredita que este é o momento de se ter uma conversa de igual para igual com as emissoras da TV aberta.

A TV Cultura abre diálogo com o produtor independente, mas a TV aberta comercial está distante - comparou Mistrorigo. Precisam notar que somos capazes de produzir com a mesma qualidade das séries que compram de fora do país.

O diretor de animação sabe bem do que fala. O maior exemplo de sucesso recente é a série infantil Peixonauta, que estreou em abril no Discovery Kids, canal da TV paga. O desenho animado é uma coprodução da TV Pinguim com a Discovery Latino América e Rádio Canadá. O seriado tem como trama principal as aventuras de um peixe e de uma garota chamada Marina.

Presente na abertura, o secretário do audiovisual do Ministério da Cultura, Silvio Da-Rin, explica que se for estabelecido como condição o desenvolvimento do mercado interno, nunca haverá venda das animações nacionais para o exterior.

Teríamos que esperar entre 30 e 40 anos até completar etapas como a de exportação avalia Da-Rin. Começam a se formar parcerias internacionais para viabilizar a produção. Isso vai mostrar êxito em médio prazo.

Outra vantagem das coproduções é a garantia de exibição nos países parceiros. Estão sendo produzidos 12 trabalhos nesses moldes. As séries de animação feitas para TV em andamento são das produtoras brasileiras 2D Lab (Meu amigãozão, NEO e Quarto de Jobi); Flamma (Princesa do mar); Glaz (Minhocas e Haunted tales for wicked kids); Martinelli (Anabel, Pinguiniks); Mixer (Doggy day care); e TV Pinguim (Magnitika). Na fila de espera, 40 novos projetos buscam parceiros.

O calendário do Brazilian TV Producers prevê outros encontros como o Fórum TV Brasil (junho, em São Paulo), o RioMarket (no Festival do Rio, em setembro) e o PIC documentário (novembro, também na capital paulista). O programa leva a assinatura da Associação Brasileira de Produtores de Televisão, em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ABPI-TV) e o Ministério da Cultura.

Braulio Lorentz viajou a convite do Brazilian TV Producer