Um voyeur da obra de Lenine

Ricardo Schott, Jornal do Brasil

RIO - O jornalista, apresentador, empresário e músico Rodrigo Pinto, 35 anos, sabe contar um compasso. É o que ele diz fazer a diferença na hora de definir o que vai ser suprimido de sua mais nova empreitada a finalização de Continuação, documentário sobre a obra do cantor e compositor pernambucano Lenine. Visitante contumaz de backstages como co-apresentador do programa Bastidores (Multishow), ao lado de Isabel Wilker, e sócio da casa de shows Cinematheque, em Botafogo, no passado chegou a optar pela editoria de Economia para evitar conflitos éticos com seu trabalho de músico. Mas hoje não impõe limites às várias facetas.

Quando faço um corte, sei o que é que vai me doer no ouvido ou não diz Pinto, que, antes do êxito em suas atuais profissões, foi vocalista da banda Berro, grupo dos anos 90 que teve vida breve. Ser músico me ajuda tecnicamente. Quando vou a uma gravação em estúdio, sei exatamente o que vai acontecer lá, o que me espera. Sempre trabalhei com programas de música, desde 2000. Ter essa vivência acaba sendo bom para mim.

Lenine, protagonista de Continuação, concorda. O encarou como praticamente mais um dos músicos em estúdio com ele. O jornalista pôs-se a registrar tudo o que se passava nos bastidores do último CD do cantor, Labiata, seu reencontro com as produções autobancadas. Inicialmente, o material captado foi feito para o EPK (vídeo promocional do disco). Mas acabou tomando dimensões maiores, quando se percebeu que estava diante da construção da visão musical do artista. O videomaker então pediu autorização para continuar o trabalho. Que, já próximo do término, pretende percorrer o caminho dos festivais de cinema.

Rodrigo estava oculto no processo, ficou até mais como um voyeur graceja Lenine, que teve documentado todo o seu processo de produção. Ele gravou desde o começo até o produto final, em que trabalhamos com vinil, CD e MP3. Eu me impus a obrigação de fazer uma canção por dia e gravar no dia seguinte. Ele captou todo o desdobramento das ideias. Mas com o diferencial da musicalidade dele. Foi rapidamente incorporado à equipe e virou uma pessoa bastante querida no processo. Sinto até falta dele ali documentando a gente.

A parceira Isabel Wilker, que tem reuniões constantes com o amigo para a pauta do Bastidores, ressalta a generosidade do apresentador.

Eu não sou jornalista, tenho outra formação. Não dividimos os programas, mas fazemos juntos as reuniões de pauta e ele sempre me orienta. Me ajuda a buscar perguntas, a conhecer pessoas. A experiência dele no jornalismo me ajuda muito elogia.

O projeto que depois gerou Continuação se iniciou em 2005, durante as comemorações do Ano do Brasil na França, quando cobriu um show do cantor em Paris, com músicos locais. Após alguns encontros, bastante espaçados, Lenine teve a ideia de convidá-lo para acompanhar o trabalho em estúdio. Como o próprio compositor ressalta, o jornalista abusou da condição de observador privilegiado. Mas Pinto garante ter deixado o rigor normalmente associado à apuração do lado de fora do estúdio. O registro de muitas cenas foi feito de forma peculiar, com gravações de bastidores, mas poucas entrevistas com inspiração direta em Don't look back, filme sobre Bob Dylan conduzido por D.A.Pennebaker. Os bate-papos mais formais feitos para o EPK nem entrarão na versão final do documentário, garante o realizador.

Não é uma cinebiografia dele, até porque Lenine está na plenitude da criação. Seria quase uma ofensa fazer isso. Teria que dar um fecho para a narrativa e ela não está fechada, porque o cara ainda está criando acredita Pinto que, em 2007, ao lado de Guto Goffi e Ezequiel Neves, baterista e produtor do Barão Vermelho, respectivamente, escreveu Por que a gente é assim, biografia do grupo. Nesse caso, tinha um fecho, a banda deu uma pausa. Mas, caso eles voltem, acho saudável que escrevam outras biografias. Com visões até de fora da banda, porque em meu livro existiam o Ezequiel e o Goffi, além de mim, que sempre fui um fã muito próximo.

Por que a gente é assim, para atestar a proximidade entre biógrafo e biografados, surgiu de textos que Goffi fizera na estrada e mostrara a Pinto, perguntando se aqueles escritos não poderiam virar um livro. E serviram para coroar uma paixão que já vinha da infância, quando, aos 10 anos, ganhou dos pais uma cópia de Maior abandonado (1984), terceiro álbum do Barão, ainda tendo Cazuza como frontman. Na época, morava com a família na Zona Norte, em bairros como Maracanã e Rio Comprido. E aprendeu a respeitar a área como uma Liverpool carioca.

A gente acaba tendo outras opções de lazer, diferentes das do carioca da Zona Sul. Tem muita banda lá, o rock carioca veio da Zona Norte. Eu pegava o 433 (ônibus que faz o trajeto Barão de Drumond - Leblon) com o Greg Wilson, guitarrista do Blues Etílicos, indo para o Circo Voador, olha só! recorda ele, que logo sucumbiu à paixão que envolve boa parte dos garotos adolescentes entediados e montou uma banda. Era um grupo de colégio que ensaiava muito, mas não se apresentava. Logo depois montei o Berro e uma prima nos pôs em contato com o Ezequiel Neves. Levei uma demo para ele, que odiou as músicas. Depois levamos outras e ele já gostou.

O Berro que além de Rodrigo Pinto tinha em sua formação o hoje engenheiro de som Clower Curtis (guitarra), Daniel Katzenstein (teclados), Lancaster (baixo) e Tiba Magalhães (bateria) conseguiu ser contratado pela PolyGram (hoje Universal) e lançar um CD em 1998, com produção dividida entre Ezequiel e Mauricio Barros.

Nossos shows eram bons, mas o disco não ficou legal recorda o ex-músico, lembrando que a experiência com a multi não foi das melhores. A PolyGram queria que a gente fosse para Los Angeles mixar com um cara que tinha sido guitarrista dos Carpenters. E a gente se perguntava: Como assim? Os Carpenters tinham guitarrista? . Não tinha nada a ver.

A proximidade com o produtor e mentor de uma de suas bandas preferidas gerou uma grande amizade. E uma formação pessoal definitiva para seu desenvolvimento como profissional.

Falo com ele todos os dias. O Ezequiel me apresentou montes de livros. A melhor formação, ou deformação, que tive, veio dele alegra-se. A percepção cultural deu uma encaretada depois da ditadura. E o Ezequiel era um cara fundamental. Lia de tudo, sabia de tudo. Nos anos 70 ele mostrava como era importante a liberdade, como a democracia era boa lá fora. Tenho mais de 50 horas de entrevista gravadas com ele em vídeo, até penso em fazer algo com esse material. Mas me dá muito mais prazer ser apenas amigo dele do que fazer algo profissional com isso.

O Cinematheque, que divide com o grupo Matriz, é onde ele tem se reaproximado mais da música.

Fizemos a casa numa época em que havia o auge dos downloads, com a indústria musical toda de joelhos lembra. E hoje, depois disso tudo, vemos que o trabalho artístico é o que prevalece. Não sou mais músico, mas até hoje acho que se há uma coisa sagrada é o artista. É preciso muita coragem para subir num palco, ontem, hoje e sempre.