Obra aberta

Daniel Schenker *, Jornal do Brasil

RIO - Textos literários, nas mãos de diretores competentes, têm alcançado resultados interessantes em cima do palco. Entre os que defendem a teoria de que não são apenas textos teatrais que rendem boas peças estão Aderbal Freire-Filho, responsável por uma vertente de espetáculo batizado de romance-em-cena; Celina Sodré, que investe em operações cênicas de obras de autores como João Guimarães Rosa e Clarice Lispector; e Moacir Chaves, engajado na encenação não só de contos e poesias como de sermões e processos.

A próxima peça de Aderbal é uma adaptação de Moby Dick, versão teatral para a obra de Herman Melville, que chega em junho no Teatro Poeira. Desta vez, não é exatamente um romance-em-cena, nos moldes de A mulher carioca aos 22 anos, de João de Minas (1991), O que diz Molero (2003), de Dinis Machado, e O púcaro búlgaro (2006), de Campos de Carvalho, em que a encenação do texto era feita (praticamente) sem cortes. O motivo é o tamanho.

Moby Dick é vasto, monumental. Se romances curtos renderam espetáculos de cinco horas, este precisaria de três dias brinca Aderbal. Não quero isto. E nem ficar restrito ao que foi feito nas adaptações para o cinema e a história em quadrinhos, que reduziram o original ao eixo da aventura entre o capitão Ahab e a baleia Moby Dick. Decidi, então, trabalhar com liberdade. Escolhi um início diferente do de Melville, desenvolvi personagens e diminui outros.

Sem impostação literária

Moby Dick vai trazer elementos determinantes em montagens anteriores, a começar pela utilização de objetos que adquirem significados distantes do literal. O formato de romance-em-cena confronta Aderbal com desafios. O principal é dar tratamento dramático à estrutura narrativa. O diretor faz com que os atores entrem em sintonia com o presente da cena ao se referirem a fatos ocorridos no passado; faz com que falem em terceira pessoa, mas interpretem em primeira.

Não gosto quando os atores se valem de impostação literária. Procuro o sentido das palavras. Quando Artaud se opôs à literatura no teatro, não estava lutando pela extinção da palavra. O que o incomodava era o uso literário da palavra em cena - esclarece Aderbal.

Celina Sodré buscou inspiração na literatura no primeiro espetáculo que dirigiu: Motivo simples, de 1983, baseado em texto de Rachel Jardim. Ao longo dos anos, transportou para a cena obras de Dostoievski, Tolstói, Edgar Allan Poe, José Saramago, Katherine Mansfield, D.H. Lawrence, Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Agora, ensaia versão de Neve, livro de Orhan Pamuk, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, com estreia marcada para 24 de julho no Instituto do Ator, na Lapa.

Uma peça é literatura dramática e não teatro. Mesmo quando parto de textos teatrais, não os monto como peças. Realizo operações a partir deles. No caso de Neve, o romance de Pamuk é extenso, com muitas tramas. Decidi pinçar algumas conta Celina, sobre a montagem batizada de Palácio de neve.

A literatura ainda marca presença em Ingmar Vincent Lispector, também em cartaz no Instituto do Ator, encenação que reúne obras do cineasta Ingmar Bergman (Persona), do pintor Vincent Van Gogh (Cartas) e da escritora Clarice Lispector (A paixão segundo GH).

É um trabalho peculiar, formado por textos soltos, que propositadamente não foram unidos na criação de uma estrutura dramática assinala.

A validade vem da cena

Moacir Chaves vem priorizando material não dramatúrgico, a julgar por Sermão da quarta-feira de cinzas, de Padre Antonio Vieira; Bugiaria, teatralização de um processo inquisitorial; Viver!, junção de textos de Machado de Assis; Inutilezas, a partir da poesia de Manoel de Barros; e A invenção de Morel, encenação do livro de Adolpho Bioy Casares.

Não sou contra a peça de teatro. É um material feito por autores que pensaram para a estrutura do palco. Como uma espécie de roteiro, no qual o diretor captura o pensamento cênico do dramaturgo. Mas não é verdade que um determinado trabalho não dê certo por se tratar de material literário. O que valida o teatro é a própria cena constata Moacir, que, mostra, atualmente, em São Paulo, Por um fio, montagem em que leva para o palco casos de pessoas confrontadas com a morte, material extraído do livro homônimo do médico Drauzio Varella.

O diretor cita como exemplos alguns de seus espetáculos.

Em Bugiaria peguei um original da inquisição, misturei com outro de Jean de Léry e com mais um texto português contemporâneo. Fiz uma composição. Esta é a autonomia do teatro. Inutilezas era um trabalho que se construía na mente do espectador resume Moacir, que evoca a versão de Humilhados e ofendidos que viu no teatro alemão, sob a direção de Frank Castorf. Os atores falavam o texto inteiro, mas sem explicá-lo.

Moacir acredita que a discussão relativa a projetos teatrais que buscam a literatura como base aponta para uma questão mais séria:

Quem pode dizer que isto ou aquilo é ou não teatro? Quem é o dono do teatro? O que é teatro? Ninguém tem essa resposta.

* especial para o Jornal do Brasil