Experiências além-Jimi Hendrix

Mariana Filgueiras*, JB Online

LONDRES - Durante quanto tempo alguém é capaz de ouvir sua música preferida? Talvez o mesmo que se leve para percorrer o British Music Experience (BME), museu hi-tech sobre a história da música britânica inaugurado há pouco mais de um mês em Londres. Como o nome sugere, o BME é muito mais uma experiência do que um museu. E vai além da exibição de velhas guitarras quebradas em vitrines (embora elas também estejam lá).

Imagine um lugar onde se pode escolher um álbum numa jukebox virtual e ouvi-lo por horas, com direito a imagens de arquivo e explicações sobre o disco numa tela exclusiva. Ou ser transportado em 3D para o palco de shows antológicos. Ou ainda participar de uma jam session virtual com Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones, num estúdio interativo...

Do skiffle ao Coldplay

O parque de diversões para os aspirantes a roqueiros existe, mas custa caro: apesar de estar registrado como entidade filantrópica, o BME cobra 15 libras por pessoa, o equivalente a R$ 53. Assim como nos shows de rock, os ingressos são vendidos com antecedência. E, também como nos shows, o museu acontece na arena O2, uma espécie de RioCentro de Londres (com a diferença de estar a poucos passos de uma estação de metrô).

O BME levou quatro anos para ficar pronto. Como os cartazes de divulgação espalhados pela cidade avisam, foi criado para reunir a história da música popular britânica de 1945 a 2009, das bandas de skiffle (versão primitiva do rock inglês) dos anos 50 ao último álbum do Coldplay, passando um pente fino por todos os descabelados dos anos 60, 70, 80, 90... Desde o inexplicável fracasso de outros museus do tipo, como o Sheffield's National Center for Popular Music ou a exibição Rock circus , do museu de cera Madame Tussaud, a Grã-Bretanha não tinha um lugar que contasse a história da sua música. Aos fãs, só sobrava atravessar a famosa faixa de pedestres na Abbey Road.

O visitante entra por um corredor escuro, para ter a sensação de um popstar saindo do camarim em direção ao palco. É recebido por uma bela apresentadora virtual, que explica o funcionamento interativo do museu, e recebe um cartão magnético para salvar as partes preferidas da exibição e rever depois pela internet.

A primeira sala é a isca dos adolescentes: um estúdio interativo, equipado pelos melhores instrumentos Gibson. Escolheu uma guitarra? Então aperte um botão e uma doce KT Tunstall pode ensiná-lo a dedilhar o hit Suddenly I see. Quem consegue sair dali ainda passa pelo Jam Studio, onde se pode praticar, gravar e fazer workshops; e segue para um complexo denominado Core. Lá é possível acessar o acervo de som e vídeo da BBC; passear por um mapa virtual dos principais acontecimentos musicais por região da Grã-Bretanha; mixar Aphex Twin com Chemical Brothers e dançar. Muito. Numa pequena cabine, até os mais desajeitados aprendem os passos mais básicos do twist-and-shout.

Stones em Copacabana

A principal dica é chegar cedo. Ainda faltam 10 salas: as que contam, em ordem cronológica, os 60 anos de história da música. E onde está toda a memorabilia: os macacões coloridos com os quais David Bowie encarnou Ziggy Stardust, o primeiro baixo de Paul McCartney, os óculos de John Lennon, os pôsteres originais dos shows 14 hour technicolor dream (de autoria de Michael McInnerey), a guitarra dourada destruída por Pete Townshend, do The Who, num show em 1974.

Todos os ambientes têm uma mesa-redonda virtual, em que importantes atores da história da música discutem temas previamente escolhidos pelo visitante na sala 1966-1970, por exemplo, artistas como Roger Dean, Aubrey Powell e Peter Blake analisam a revolução do design das capas dos discos da época. Outro brinquedo inacreditável é uma jukebox (com tela touchscreen) em que é possível escolher um dos discos disponíveis e assistir a imagens de arquivo sobre sua criação. Quem sente passar os 17 minutos do clássico In-a-gadda-da-vida ao ver imagens dos integrantes do grupo Iron Butterfly ainda jovens?

No meio da exibição, uma foto familiar aparece projetada na sala 1993-2009: a Praia de Copacabana, lotada, com Mick Jagger à frente do palco. Apesar de não bater o recorde de público do show de Rod Stewart no réveillon de 1994, que levou à Praia de Copacabana mais de 3 milhões de pessoas, os próprios integrantes dos Rolling Stones consideram este o maior show do rock da história , diz uma entusiasmada explicação no audiofone. No show do Stewart, as pessoas estariam lá de qualquer jeito, disse Ronnie Wood , conclui a gravação.

Chama a atenção a contemporaneidade do acervo. Já está lá, na mesma sala, o vestido que a diva Amy Winehouse usou no show que fez para comemorar os cinco Grammys que levou ano passado, quando teve negado o visto de entrada nos EUA.

Curioso é que um museu com tanta coisa sobre o rock não fale quase nada sobre sexo ou drogas diz o engenheiro aposentado irlandês David Fleming, 61 anos. Se bem que, se contassem todas as histórias, não sei quantas horas levaria aqui dentro.

Shows simulados em 3D

Fleming aproveitou a visita que fez a um casal de amigos, em Londres, para visitar a exibição.

Estou impressionado por ter lembrado hoje de tantas músicas de que eu gostava, mas já tinha esquecido comenta.

A exibição parece ter fim pelo menos para os cardíacos e sensíveis, como explica uma funcionária do BME, à entrada da última sala. O lugar talvez seja o o protótipo mais moderno de uma máquina do tempo: lá os visitantes são levados, em 3D, ao palco de shows históricos. Um mix de Queen, Led Zeppelin, The Who, David Bowie, The Clash, Radiohead, Beatles e Jimi Hendrix. Aliás, só depois de uma visita ao BME é possível responder à pergunta que Hendrix deixa no ar no título do álbum de 1967: Are you experienced?

* especial para o Jornal do Brasil