Competição do 13º Festival do Recife termina morna

Portal Terra

JB ONLINE - A exibição na noite deste sábado de Estranhos, último concorrente ao Troféu Calunga do 13º Cine PE Festival do Audiovisual do Recife, teve boa recepção do público, mas manteve o tom mediano da competição.

É relativo falar de uma média com apenas cinco longas-metragens na mostra principal. Contudo, houve filmes com bom diálogo com a platéia jovem do Cine Teatro Guararapes, outros que não conquistaram a imprensa especializada aqui presente, e outros ainda que levantaram boa polêmica, talvez o melhor aditivo nos festivais.

O título baiano Estranhos faz seguramente parte do primeiro bloco, mas não dos demais. É um filme simples, ainda que essa conotação seja dúbia. Simplicidade reafirmada pelo diretor Paulo Alcântara em sua estréia, como adiantou no palco antes da exibição, e também na conversa com jornalistas e interessados nesta manhã.

Alcântara explicou que o ponto de partida da fita foi um roteiro do escritor peruano Santiago Roncagliolo, radicado em Madri. "Era uma história de pessoas simples, vidas simples, em Madri, e nós transferimos essa idéia para Salvador".

Estranhos pode até ser simples, na medida em que traz personagens do cotidiano de um bairro periférico de Salvador envolvidos em seus pequenos dramas. Mas a costura dessas histórias se pretende ambiciosa, ao lançar mão do conhecido recurso das tramas independentes que ao final vão se encontrar.

O músico de rua que se apaixona por uma jovem ex-prostituta casada com um marido ciumento a ponto de espancá-la com freqüência; um amigo do primeiro, que se torna parceiro de um ladrão gay; a professora que tenta refazer sua vida depois de abandonar o marido e atrai a paixão de dois homens; por fim, algumas histórias menores que partem dos motes principais. Levado em tons diferentes, o que compromete a intenção do diretor em manter a coerência das histórias, a fita adota o humor mais imediato, a tragicomédia e o drama, sem se estabelecer em um gênero definitivo.

A evidência de influência de longas de sucesso, a exemplo de Cidade de Deus e Cidade Baixa - este último um filme também vinculado ao extrato social mais baixo soteropolitano, mas que se encaminha bem pelo viés dramático - além da inspiração final no argentino Plata Quemada, contribui para a falta de uma característica original da produção.

O bom tino cômico de alguns atores, como Cyria Coentro, é em grande parte o responsável pela reação positiva do público. Saberemos logo mais à noite se essa receptividade valerá um prêmio de público, batendo, por exemplo, o apelo ainda maior de Alô, Alô, Chacrinha, documentário sobr eChacrinha.

Curtas-metragens

A seleção de curtas-metragens reafirmou que coube a esse formato o trabalho de melhor qualidade e originalidade deste festival. É até possível eleger alguns temas e gêneros recorrentes, como a animação, a música e o enfoque sobre adolescentes, crianças e travestis. Sobre esses últimos personagens, Phedra, da paulista Claudia Priscilla (mulher do diretor Kiko Goifman), foi uma nova e ótima contribuição à galeria, a partir da entrevista com Phedra de Córdoba, que se define como atriz e cantora, ligada ao núcleo teatral Satyros, de São Paulo.

Destaque ainda à sofisticada, mas um tanto enigmática, animação do Paraná Silêncio e Sombras (baseada em conto de Goethe) e ao filme gaúcho Hóspedes, um encontro delicado entre uma jovem que sofre um acidente e acorda na casa de um estranho, de constituição física, digamos, singular.