Ao coração, com conteúdo

Ricardo Schott, Jornal do Brasil

RIO - O desejo de modernização, que ainda move boa parte dos artistas da música brasileira, não é compartilhado por Nana Caymmi cujo pai, Dorival, morto no ano passado, teve influência sobre a geração do tropicalismo, nos anos 60. A praia da cantora é a da MPB como antigamente, com melodias sofisticadas, arranjos instrumentais caudalosos e canções ricas em detalhes geralmente frutos de valiosas parcerias, que ela grava sempre, a cada novo disco. É o que dá vida à boa parte das músicas de seu 49º disco, Sem poupar coração (Som Livre).

Nana se diz pertencente a uma classe que está em extinção atualmente: a dos intérpretes. E lamenta que a música da atualidade não tenha a paixão dos boleros que ouvia na adolescência.

Continuo exaltando muito no meu trabalho o bolero, que é uma conexão do Brasil com a América Latina. Não dá para valorizar só essa música que está na moda, essa coisa de que o homem vai para um lado, a mulher para outro observa.

Nana cita os pais várias vezes na entrevista. Dorival morreu em 16 de agosto do ano passado, aos 94 anos; a mãe, Stella Caymmi, apenas 11 dias depois, aos 86. Ambos pontuam, espontaneamente, algumas frases. Sem poupar coração é dedicado a eles. Antes mesmo da morte dos pais, a cantora havia se afastado da música para cuidar de Dorival, já doente. Mas assevera que nunca pensou em parar. Apenas guardou um período de luto.

Precisava jogar um disco novo na praça, não daria para parar afirma Nana, ainda sem conseguir dimensionar a perda. Foram oito meses e hoje posso dizer que sei o que é andar sozinha. Foi um baque para a família inteira. E é até hoje. Foi triste fazer um disco sem meus pais. Sempre mostrava o que fazia para eles.

A canção favorita da mãe

Mesmo distante, a mãe de Nana está no álbum novo. Entre canções como Contradições (Cristóvão Bastos e Aldir Blanc, mesma dupla que deu a Nana Resposta ao tempo), Sem poupar coração (Dori Caymmi e Paulo Cesar Pinheiro), Caju em flor (João Donato e Ronaldo Bastos) e Pra quem ama demais (Fátima Guedes), surge Senhorinha, de Guinga e Paulo Cesar Pinheiro, uma das músicas preferidas de dona Stella.

Ela vivia cantarolando essa música em casa afirma a cantora, cujo maior conceito ao montar um álbum passa pelo sentimento. O que me move são as melodias. E também gosto de letras bonitas, que falam ao coração com conteúdo. Foi uma bola cheia ter três letras do Paulo Cesar Pinheiro (há também Violão, parceria com Sueli Costa).

O aconchego da família foi vital para o álbum novo. Além das participações dos irmãos Dori e Danilo, ainda tem a sobrinha Alice, estreando como autora num disco da tia, com Diamante rubi.

É uma música que ela fez para o namorado aos 13 anos e que eu adorei. Na minha família as reuniões sempre acabam em música, cada um mostra alguma coisa. Meu pai plantou essas sementes, é minha obrigação prosseguir diz.

Nana revela que a insistência de uma amiga a teledramaturga Glória Perez foi fundamental para que, em dezembro, voltasse aos estúdios. Glória também encostou Nana na parede para que gravasse algo para a trilha da novela Caminho das Índias, que ocupa o horário das 21h da rede Globo.

A Glória falava E aí, Nana? A novela já vai ao ar! . Ofereci duas músicas, mas ela já tinha Não se esqueça de mim, (Roberto e Erasmo Carlos) em mente. É uma música que eu tinha gravado em Resposta ao tempo (1998), mas que tinha ficado ofuscada pelo sucesso da faíxa-título. Aí resolvi regravar diz Nana, que teve Erasmo a seu lado na gravação da música. Sou fã do Tremendão e do Roberto há bastante tempo. E foi uma maravilha ter participado da novela da Glória, gravando ao lado dele.

A preocupação regrada com as vendagens sempre foi uma tônica de sua carreira. Ao lançar o álbum Chora brasileira (1985), que fez relativo sucesso com a faixa-título (de Fátima Guedes, Djalma e Rosana Lessa), chegou a declarar que não colecionava discos de ouro. O que não a faria dispensar a televisão como forma de divulgação.

Imagina! Agora vai estrear essa novela nova do Manoel Carlos (Viver a vida) e já até mandei um CD para ele conta. Novela é garantia de publicidade. Ainda hoje tem gente no Brasil que não me conhece. Quando entro numa trilha, canto para o país todo. Graças a tipos como eu e os compositores que canto, a música não vai à falência.

Gravadoras perderam rumo

Apesar do admiração por Roberto & Erasmo, decanos do rock brasileiro, Nana poucas vezes esbarrou na música pop. As exceções foram quando gravou Doralinda, parceria de Cazuza e João Donato, em 1998. E quando participou do terceiro disco solo de Herbert Vianna, O som do sim (2000), em Hoje canções parceria de Herbert e Paulo Sérgio Valle que também contou com o piano de Marcos Valle.

Eu era até próxima dos Paralamas do Sucesso e da Legião Urbana, pela convivência na (gravadora) EMI recorda. Mas não aconteceu de gravá-los. Sou mais intérprete do que cantora, não iria conseguir recriá-los.

De 1965, quando gravou o primeiro disco, até os dias de hoje, Nana Caymmi tem feito o caminho inverso de boa parte dos artistas mais antigos da MPB, que buscam hoje selos independentes. Começou em selos menores (registrou álbuns nas pequenas Elenco e Cid) e só depois foi sendo descoberta pelas grandes gravadoras, passando por quase todas elas. A parcela mais marcante de sua discografia surgiu pela EMI a antiga Odeon pela qual seu pai registrara álbuns como os clássicos Canções praieiras (1954) e Eu vou pra Maracangalha (1957).

A EMI era um clube. Hoje só encontro um clima assim quando vou ao estúdio Companhia dos Técnicos. Sempre esbarro lá com Zeca Pagodinho, Fagner... relembra, esperançosa. Tivemos épocas de ouro, mas vamos voltar a essa fase. Hoje grava-se independente porque as gravadoras fizeram tanta coisa inútil que perderam o rumo. E nunca se uniram com os músicos. O artista não pode ficar parado.