A cidade, seus planos e seus detalhes

Táia Rocha, Jornal do Brasil

RIO - Pessoas, asfalto, moedas, arquitetura: a relação entre os temas, aparentemente desconexos, pode ser mais intensa do que se possa imaginar. Na mostra tripla que reabre o Museu Nacional de Belas Artes no próximo domingo, depois de passar por um mês de reformas, a ligação do homem com o meio vai permear as exposições do paulistano Arnaldo Pappalardo e as dos cariocas Cesar Barreto e Thiago Barros numa das atrações que integram o Foto Rio 2009, evento bienal sobre fotografia.

Em sua primeira exposição individual no Rio, Tensão sobre a calma, Pappalardo trouxe na bagagem três diferentes séries: a instalação Chão, com quatro macrofotografias de detalhes do asfalto de São Paulo, com 3,20m x 4,50m, e as séries Noite, com seis imagens da noite no Centro paulistano impressas no formato 2m x 2,80m e Gente, com 20 fotografias de pessoas em seu habitat natural : o bairro Brás e a região conhecida como zona cerealista, que concentra grandes galpões de estoque de cereais.

Asfalto, pessoas e a noite

Os três núcleos falam sobre a cidade detalha o fotógrafo. Na série Noite, procurei mostrar o clima noir que o Centro de São Paulo encerra, na minha percepção. Já em Gente, fiz retratos das pessoas, como são, onde trabalham e circulam. Nem acho que seja preciso conceituar além disso. Na instalação Chão, foco detalhes do asfalto paulistano que, isolados de seu contexto, se tornam abstratos.

Pappalardo fotografa há 30 anos e já recebeu o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) por uma exposição no Museu de Arte de São Paulo (MASP), em 1984. Ele acrescenta:

O que gosto de imaginar é qual elo as pessoas vão traçar entre as três mostras completa.

Assim como Pappalardo, o carioca Cesar Barreto também voltou os olhos para o chão e nele descobriu seu objeto de estudo e encanto nos últimos sete anos: as moedas encontradas nas areias da Praia Vermelha, na Urca.

Comecei a estranhar a grande concentração de moedas no lugar, e passei a colecioná-las. No início, pegava apenas moedas, mas reparei que a areia também agrupou várias, com o tempo, formando pequenas esculturas descreve Barreto.

Jogamos dinheiro fora

Nas 30 fotos em cores e em preto e branco da mostra, o fotógrafo procurou mostrar a ação do tempo, gravada nas moedas de várias origens, décadas e séculos. As imagens, em grande formato, mostram a reação de várias ligas metálicas à oxidação, em uma tradução da efemeridade dos valores que atribuímos aos objetos.

Várias reflexões são válidas, inclusive as mais práticas: gosto de pensar em como o brasileiro lida com seu dinheiro, já que não consigo me lembrar de nenhum outro país que jogue tanto dinheiro fora no mundo polemiza.

A lente de Thiago Barros também explora uma cidade, Paris, mas, para isso, aborda outro tempo. Mais exatamente, de 4 a 15 minutos período que o obturador de sua máquina se manteve aberto, uma técnica que lembra a fotografia do início do século 19:

Minha proposta foi falar do vazio e da solidão, esvaziando as ruas de pessoas. Quis limpar as vias de pessoas, para evidenciar a arquitetura da cidade conta o carioca. No processo, as pessoas que passam em frente à máquina não são registradas ou aparecem como vultos, já que na Europa usa-se muito roupas pretas, que refletem pouco a luz. Mas alguns passantes pararam, sem que eu fizesse qualquer intervenção, ficaram observando a paisagem, e acabaram registrados.

Apesar do nome no plural, a mostra Metrópoles só enquadrou a capital francesa.

A ideia é mostrar depois outras cidades, sempre tentando revelar planos menos clichês, claro, embora em cidades como Paris o feito seja quase impossível salienta o fotógrafo.