A 'biografia' do famoso livro de Stefan Zweig sobre o Brasil

Cassiano Viana* , JB Online

RIO - Com o livro Stefan Zweig no país do futuro, o Brasil salda uma parcela (ainda pequena) da dívida histórica com o austríaco autor dos romances Amok, Carta de uma desconhecida (ambos de 1922) e Vinte e quatro horas da vida de uma mulher (de 1927), das biografias de personagens como Maria Antonieta e Maria Stuart, e que foi amigo de escritores como Hermann Hesse, James Joyce e Sigmund Freud.

Organizado e escrito pelo jornalista e escritor Alberto Dines que já havia publicado, em 1981, pela Nova Fronteira, Morte no paraíso: a tragédia de Stefan Zweig, transformado em 2002 no filme Lost Zweig, de Sylvio Back o livro é a biografia de um livro. No caso, de Brasil, país do futuro. Editado pela EMC Edições e pela Casa Stefan Zweig, Stefan Zweig no país do futuro compreende os 15 meses entre o momento em que o escritor austríaco decidiu deixar a Inglaterra (maio de 1940) e voltar para o Brasil para cumprir a promessa de escrever o livro sobre o país que o acolheu como exilado, até o lançamento simultâneo em seis línguas (agosto de 1941). A organização do livro publicado 68 anos após a primeira edição de Brasil, país do futuro, foi iniciada em 2006. Fartamente ilustrado com documentos da seção de manuscritos da Biblioteca Nacional, fotos e recortes de época, o livro é bilíngue, com tradução para o alemão de Kristina Michahelles.

Autor lido e respeitado na primeira metade do século 20, Zweig esteve no Brasil pela primeira vez em 1936, a caminho de Buenos Aires. Foram só 10 dias o suficiente, no entanto, para se apaixonar pelo país e prometer ser nosso camelot na Europa, divulgando o país em uma série de artigos publicados na imprensa europeia e americana. Promessa devidamente cumprida, nos anos seguintes, Zweig manteve o contato com o Brasil, sobretudo com os diplomatas, cicerones e anfitriões da primeira viagem e também com o seu editor, Abrahão Koogan, da Editora Guanabara, que iniciara, o lançamento de suas obras completas.

Com a Segunda Guerra e a possibilidade de uma invasão nazista na Inglaterra, onde morava, Zweig veio para o Brasil fugindo da blitzkrieg de Hitler, onde anunciou que passaria algumas semanas para finalizar o que chamou de The brazilian book. Viajou do Amazonas ao Rio Grande do Sul colhendo material para o livro, concluído nos EUA em 1941. Pouco tempo depois, desembarcou no Rio para o lançamento do título Brasil, país do futuro. Foi recebido com críticas: para muitos, o escritor tinha sido comprado pelo regime do presidente Getúlio Vargas.

No Brasil pela terceira vez, pretendia ficar bem mais tempo. Tanto que alugou um bangalô em Petrópolis, onde se suicidou oito meses após a publicação do livro. Segundo Alberto Dines, Brasil, país do futuro transformou-se em epítome do olhar estrangeiro, a crônica mais conhecida e a menos discutida, a mais celebrada e mais negligenciada. O livro foi editado em vários países, entre os quais, França, Suécia, Alemanha, Espanha, Estados Unidos e Portugal.

É impossível conhecer inteiramente o Brasil, esse mundo tão vasto. Passei cerca de meio ano nesse país, mas só agora, apesar de toda a vontade de aprender e de todas as viagens, sei o quanto falta para ter uma visão realmente completa desse gigantesco reino e que uma vida inteira não bastaria para poder afirmar: conheço o Brasil , escreveu, apaixonado, na introdução da obra, declarando ser o Brasil um dos países mais exemplares e amáveis do mundo.

Zweig afirmava que sobre a existência do Brasil repousavam as maiores esperanças das civilizações futuras. Um belo dito, levando em consideração a projeção que temos hoje com as conquistas da indústria do petróleo nacional (curiosamente, Zweig foi um dos primeiros a chamar a atenção para o uso do álcool como alternativa de combustível) e a popularidade de nosso chefe de estado, recentemente chamado de o cara , pelo presidente da maior potência mundial, os Estados Unidos.

A última declaração de Zweig: Antes de deixar a vida, de livre vontade e juízo perfeito, uma última obrigação se me impõe: agradecer do mais íntimo a este maravilhoso país, o Brasil, que propiciou a mim e à minha obra tão boa e hospitaleira guarida. A cada dia fui aprendendo a amar mais e mais este país, e em nenhum outro lugar eu poderia ter reconstruído por completo a minha vida, justo quando o mundo de minha própria língua se acabou para mim e meu lar espiritual, a Europa, se auto-aniquila. (...) Saúdo a todos os meus amigos! Que ainda possam ver a aurora após a longa noite! Eu, demasiado impaciente, vou-me embora antes .

Por tudo isso, Stefan Zweig no país do futuro e, obviamente Brasil, país do futuro, um livro de viagens com olhar estrangeiro, torna-se um livro de leitura fundamental, tanto quanto Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Hollanda, e Casa grande e senzala, de Gilberto Freyre. Vale a pena informar: o dinheiro arrecadado com a venda do livro será investido integralmente na reforma da casa onde Zweig morou, em Petrópolis.

* Jornalista e tradutor