Em filme, Paulo Vanzolini diz que nunca quis perder tempo com música

Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

RECIFE - Ele é autor de clássicos do samba urbano paulistano, é reverenciado pela nata da MPB, mas prefere a companhia dos animais silvestres. O que você precisa entender, meu amigo, é que eu sou zoólogo , diz Paulo Vanzolini em Um homem de moral, documentário de Ricardo Dias sobre o cientista brasileiro, formado em medicina pela Universidade de São Paulo e doutorado em biologia em Harvard (EUA). Nunca fiz música profissionalmente, não queria perder tempo com isso, porque considerei minha profissão , revela mais adiante o teórico da biodiversidade, que completou 85 anos na semana passada. O filme, que estreia dia 5 de junho no Rio e em São Paulo, foi exibido nesta quarta-feira na competição do 13º Cine PE para uma plateia encantada com a prosa do autor de Ronda e Volta por cima.

Este é o terceiro encontro de Dias com o zoólogo e compositor (ex-compositor: Vanzolini escreveu a última das suas 52 canções ainda nos anos 80), personagem do diretor no longa-metragem No rio das Amazonas (1995) e no curta Os calangos do boiaçu (1992). Um homem de moral começou a tomar forma em 2002, na época do lançamento da caixa de CDs Acerto de contas, da gravadora Biscoito Fino. Dias estava sempre por perto e registrou os ensaios, as gravações e o espetáculo de lançamento da homenagem, no Sesc Vila Mariana em 2003. O filme reúne depoimentos do compositor, imagens raras de Adoniran Barbosa e fotos do arquivo de Thomaz Farkas, que ilustram e contextualizam as 28 músicas do filme.

Conheci o arquivo do Farkas quando codirigimos o curta Pixinguinha e a velha guarda do samba (2006). Encontrei jóias como a foto do cara (Vanzolini) lendo um jornal em plena Avenida São João, em 1948, que nunca havia sido usada. Era perfeita para ilustrar uma música como Ronda conta Dias.

Figura um tanto arredia ( Não gosto de gente individualmente, mas do povo em geral gosto muito , admite Vanzolini no filme) o documentário se beneficia do respeito conquistado por Dias ao longo das décadas. O cineasta o conheceu ainda menino, nos anos 60, quando o pai, engenheiro, construía a barragem do rio Jupiá, no Paraná. Vanzolini fazia o estudo do impacto ambiental da obra na região. Dias foi aluno do cientista quando estudou Biologia na USP nos anos 70. Desde 1984 documenta o trabalho de Vanzolini como zoólogo. De certa forma, Um homem de moral tem o ponto de vista do pupilo diante do mestre.

Quando o vi pela primeira vez, ele estava taxidermizando (técnica parecida ao empalhamento) um macaco. Foi na época em que Volta por cima estourou. Meu pai se referiu a ele como o autor daquela música, ressaltando que, na verdade, ele era um cientista. recorda o diretor. Só vim a conhecer e me inteirar de seu processo musical durante a realização do filme. Vanzolini não escreve letra e depois põe música: faz a letra da canção com a música.

Vanzolini trabalhou por mais de 50 anos no Museu de Zoologia da USP e foi diretor da instituição entre 1962 e 1993, quando se aposentou. Apesar de viver longe dos circuito musical, ainda tem o respeito e a admiração de seus pares. O filme conta com a participação de nomes como Chico Buarque, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Inezita Barroso, Paulinho Nogueira, Miúcha, Virgínia Rosa e Chico Aguiar, entre outros.

(Carlos Helí de Almeida viajou a convite do Cine PE)