"A janela": Decadência bem fotografada

Bolívar Torres, Jornal do Brasil

RIO - Não há dúvida de que o diretor argentino Carlos Sorín sabe filmar. Sua habilidade aparece nos belíssimos planos de A janela, no qual abandona a câmera frenética de seus últimos longas. Tanto nos ambientes fechados a casa antiga, que absorve o estado físico e mental do protagonista, velho homem de uma oligarquia decadente quanto nos grandes espaços as impactantes cenas no campo.

É um prazer afirmar que os planos de Sorín são muito mais do que bonitos: o seu visível efeito de fabricação, às vezes no limite da ostentatório (como, por exemplo, um pouco de exagero plástico nas cenas de crepúsculo) estão a serviço de uma ideia de mise-en-scéne bastante rigorosa, e apenas não para exibir enfeites vazios. O diretor consegue traduzir o understatement presente nos melhores contistas de atmosfera (Tchekhov e Raymond Carver, por exemplo). Pena que no final force um pouco a barra no conflito de gerações (a aristocracia suplantada pelo mundo das comunicações) com artifícios simbólicos um tanto pesados.