Fotógrafo Paul Strand ganha 1ª mostra individual na América Latina

Daniel Ramalho, Jornal do Brasil

RIO - Em plano americano, a imagem mostra poucos cabelos brancos de uma senhora de rosto talhado pela agruras da vida à luz natural do dia, emoldurado em um gorro. Um dos seus olhos está fechado, o outro parece enxergar algo à direita. Em seu peito, duas placas estão penduradas: a menor apresenta um número de identificação e na maior lê-se blind ( cega , em inglês). Intitulada Blind woman, é uma das imagens clássicas do fotógrafo americano Paul Strand (1890-1976), que ganha primeira exposição individual do artista na América Latina, a partir de hoje, no Instituto Moreira Salles. A imagem atemporal da escola straight photography está entre as 107 que integram a exposição Olhar direto: fotografias de Paul Strand.

É um fotógrafo que se tornou um paradigma na história da fotografia. Conhecer a obra de Strand é entender como chegamos até aqui: é uma história do nosso olhar explica Heloisa Espada, coordenadora do setor de artes vistuais do Instituto Moreira Salles. Os fotógrafos que tinham intenção em fazer arte começam a olhar mais para o potencial da técnica fotográfica. Tínhamos grandes fotógrafos que não estavam tão interessados em expor a obra em espaços de arte. Ele foi um dos primeiros.

O problema da tradução é ter de se criar pontes entre mundos distintos. A expressão straight to the point numa tradução literal pode ser entendida como ir direto ao ponto . Na língua inglesa, no entanto, carrega uma intensidade maior e significa algo como pôr o dedo na ferida . Paul Strand vai mais que direto ao ponto. Não à toa, conquistou reconhecimento de seu tutor Alfred Stieglitz, que lhe concedeu páginas nas edições de Camera Work, revista que editava.

A cega na fotografia em questão estava numa esquina de Nova York em 1916. Temas ainda contemporâneos como a sociedade de classes, os excluídos e o frenesi da industrialização são fixados em sal de prata num olhar de um esteta da luz natural. Num mundo de profusão tecnológica, imagens numéricas, cartões de memória de capacidade exponencial, celulares com câmeras, teleobjetivas de alcance inimaginável e afins, as imagens capturadas pela câmera rudimentar e filmes monocromáticos de poucas exposições de Strand criam novas possibilidades de olhar. Um século se passou e o trabalho de Strand continua atualíssimo. Olhava, esperava, olhava e via. E fotografava.

Paul Strand nasceu em Nova York. Seus primeiros trabalhos feitos foram por volta de 1910. Na década de 40 foi produtor, diretor, fotógrafo e editor de documentários como Manhatta, em parceria com Charles Sheeler. O tema é o pulsar de uma metrópole. O público carioca confere a incursão de Strand no cinema com Redes de Fred Zinnemann, Native Land e Manhatta, exibidos às quintas-feiras e sábados, às 16h, no cinema do Moreira Salles.

Olhar Direto, fotografias de Paul Strand é fruto de parceria entre o Instituto Moreira Salles e a Aperture Foundation, instituição que preserva e divulga a obra do fotógrafo americano. Há cenas das ruas de Nova York, com luz e sombras desenhando nas fachadas dos edifícios. Passa pelo olhar investigador que flerta com o surrealismo em imagens com detalhes de máquinas industriais. Até ele se tornar um fotodocumentarista consagrado, viajante e autor de livros.