ASSINE
search button

Ex-Joelho de Porco Billy Bond virou produtor de musicais infantis

Compartilhar

Ricardo Schott, Jornal do Brasil

RIO - Sempre que concebe um espetáculo (e não são poucos), o produtor, diretor e músico Billy Bond, 64 anos, sabe que precisa quebrar o cofrinho. Mas o faz com prazer e confiante nos resultados como quando estava, nas décadas de 70 e 80, à frente da banda Joelho de Porco e do lendário programa de clipes BB Vídeo. No infantil A Bela e a Fera, que leva para São Paulo (HSBC Brasil, 20 de junho) e para o Rio (Vivo Rio, 11 de julho), o chefe da Black & Red Produções emprega forças no roteiro, na direção e na trilha sonora e comanda um universo de cinco cenários, 40 personagens e cerca de 180 figurinos. Traz cinco telões em terceira dimensão, usados pela primeira vez no Brasil num espetáculo deste tipo, e diálogos e canções em português. Tudo com um cuidado extremo para preservar o enredo de um musical de tradição acima de qualquer suspeita.

Tem muito produtor que acha que as crianças são idiotas, o que não é meu caso diz Bond, responsável também por trazer outros infantis do universo Disney, como Pinóquio e O mágico de Oz. A criança quer o mesmo luxo dos musicais adultos. Elas adoram ver os personagens lutando espadas, a Fera levitando. E ainda tem o condimento extra, que é o 3-D.

A audiência dos espetáculos produzidos por Bond como Pinóquio, que arrebatou cerca de 900 mil espectadores e ainda roda pelo Brasil comprova que ele descobriu uma fórmula de sucesso. O qual espera repetir com A Bela e a Fera. Mas Bond reluta em ver suas produções dispersas em meio à recente demanda por musicais.

Prefiro nem usar esse rótulo. O que faço une teatro, dança, música define. Não tem aquele tom operístico dos musicais, que é muito chato. Queremos um show que as crianças adorem e que conquiste os pais.

Christian Tedesco, diretor comercial do grupo Tom Brasil, concorda com Bond e diz que seu trunfo é a modernização.

A geração atual é rodeada de informações e tecnologias, e pode achar um musical tradicional monótono. Só que Bond consegue recuperar o interesse deles afirma Tedesco. Sem falar que os textos que escolhe sempre têm uma mensagem, um valor a ser passado.

O dinheiro investido nas produções é grande só em A Bela e a Fera foram mais de R$ 4 milhões. O ingresso não é barato (em alguns casos, as entradas podem atingir R$ 300).

Mas queremos que todo mundo vá. Fazemos espetáculos para crianças carentes. Mantemos um patamar de preço dos convites para facilitar a compra explica ele, que anda não identifica a crise chegando às suas produções. O teatro ainda é uma diversão de gente de maior poder aquisitivo.

O teatro estava nas entrelinhas da relação de Bond (aliás, Giuliano Canterini, seu nome verdadeiro) com a música, bem mais antiga. Nascido na Itália, foi para a Argentina na infância. E lá, no fim dos anos 60, lotava espaços em meio à ditadura do país com o grupo de hard rock Billy Bond Y La Pesada. Também produzia espetáculos pop. Alguns duramente reprimidos pela polícia, como o que fez em 1972 no Luna Park.

Depois disso, tive que me exilar recorda Bond, que foi para Nova York e Londres gravar músicos latino-americanos. Meu nome estava numa lista negra. E algumas das pessoas que estavam nesta lista foram assassinadas. Aí vim para o Brasil e conheci os Secos & Molhados através do Willie Verdaguer, baixista deles, que era argentino. Quando o Ney Matogrosso deixou o grupo, o (jornalista) Daniel Más me chamou para dirigir seu show e seu disco de estreia, Água do céu-pássaro (1975).

Na época, a ideia de Bond era ainda que falasse português com sotaque portenho fortíssimo, não abandonado ate hoje ser cantor. Em 1977, assistiu a um show da banda paulista Joelho de Porco e se ofereceu como vocalista. Começava aí uma das duas facetas do empresário mais conhecidas dos brasileiros. A outra foi a de diretor e apresentador do BB Videoclip, que valorizava, de forma pioneira, o clipe numa era pré-MTV Brasil.

O Bond é um cara a quem sempre precisamos recorrer para falar da linguagem de TV e rádio. É um vanguardista define o jornalista Luiz Antonio Mello, antigo amigo.

Hoje, contabilizando cinco casamentos e cinco filhos, Bond prossegue com uma rotina intensa de trabalho acorda às cinco da manhã e encerra os serviços só à noite noite. E diz que muita coisa ficou do jovem argentino contestador que teve que se exilar.

Ainda hoje continuo brigando muito para que tudo seja mais claro e justo. Para lidar com o sistema, é preciso negociar com ele.

Atitude punk no palco e picolé de peixe e destruição de aparelhos na TV

Movimentando o corpanzil pelo palco do Cassino do Chacrinha, um cantor maquiado derruba o apresentador no chão e rouba sua buzina. Essas e outras peripécias tiveram a assinatura de Billy Bond à frente do Joelho de Porco. O artista foi o frontman do grupo por dois anos, tempo em que gravou um álbum homônimo (Som Livre, 1978, relançado em CD em 2007) e levantou a carreira da banda, que vinha de um álbum cultuado, mas pouco ouvido, São Paulo 1554/Hoje (1976).

Falavam que éramos um grupo punk. Mas a gente era uma doideira, uma mistura de Sex Pistols e Novos Baianos. Não tínhamos a agressividade do punk relembra Bond, que hoje pode ser visto com o grupo no YouTube, em vídeos de músicas como Rio de Janeiro City. Como o Roberto Talma, que dirigia o Fantástico, nos adotou, passamos a aparecer muito na TV. O Chacrinha até brincava que eu era o filho adotivo dele. Acho que influenciamos muita gente, inclusive bandas como Titãs.

Em 1979, deixou a banda e iniciou carreira solo com o álbum O herói. Que o aproximou das coxias. Após uma temporada solo no Teatro Brigadeiro, em São Paulo, foi convidado para assumir a programação da casa, atuando em peças como Pato com laranja (texto de William Douglas Home, com Paulo Autran) e Meno male (de e com Juca de Oliveira). Até que, em 1983, deparou-se com uma reportagem de capa da Time sobre o sucesso que Thriller, clipe de Michael Jackson, fazia na MTV americana. Foi um passo para que se mudasse para o Rio, montasse a produtora BB Video e comprasse horários na antiga TV Record para montar o BB Videoclip, apresentado pelo radialista Eládio Sandoval e pelo próprio Bond, que fazia personagens como o contra-regra maluco . Além de exibir clipes internacionais e de dar espaço para outros programas de sua empresa (como o surfístico Realce, apresentado por Ricardo Bocão), passou a produzir vídeos nacionais de artistas como Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Biquini Cavadão e Erasmo Carlos (o vídeo de Close, com participação da modelo Roberta Close). Mas o forte eram mesmo as brincadeiras.

Uma vez levamos um aparelho de TV velho e fizemos o exorcismo da televisão, para as pessoas pararem de ver novela. Depois esmigalhamos o aparelho no ar recorda Bond. Também inventávamos receitas malucas, como picolé de peixe. Em outra ocasião, fizemos o Renato Russo chupar um limão em frente às câmeras.

Bond e Sandoval também contornavam com paciência o amadorismo do canal na época.

Uma vez chegamos para fazer o programa e faltou luz na estação. Aí fizemos o BB Videoclip inteiro à luz de velas. Pedíamos no ar que mandassem um dinheirinho para pagarmos a conta de luz.