Sanfoneiro italiano Mirco Patarini encarna João Gilberto em show

Leandro Souto Maior, JB Online

RIO - João Gilberto não apareceu e neste caso, vamos logo avisando, normal no teatro do centro cultural que leva seu nome na cidade onde nasceu, Juazeiro, no interior da Bahia, mas até parecia que era ele o solitário instrumentista no palco do Festival Internacional da Sanfona, na noite de terça-feira. O italiano Mirco Patarini, protagonista do primeiro show do evento, encarnou o inventor da bossa nova: antes de entrar em cena, pediu que fossem retirados do palco os dois microfones que amplificariam o som de seu instrumento para o público de 400 pessoas que lotou o teatro. Purista, Patarini queria o som natural da sanfona. Seu belo instrumento, uma imponente Scandalli preta e branca de 120 baixos (pode-se dizer que é a Gibson das sanfonas), tinha projeção de som para chegar a todos os ouvidos, mas para isso era necessário silêncio absoluto na plateia. Até respirar estava difícil. E ficou pior ainda quando o italiano joãogilberteou novamente, logo após seu primeiro número, pedindo que o ar condicionado fosse desligado. Sem aquele ventinho (como diria o baiano) do equipamento de refrigeração, seu instrumento ficou bem mais audível, na mesma proporção em que o calor ficava cada vez mais insuportável.

Patarini, hoje com 42 anos, aos 18 anos foi campeão mundial de acordeonistas.

Forró não é um gênero tão difícil de se tocar. Mas é preciso ter o feeling e o estilo, o que eu realmente não tenho avalia Patarini. - Seria a mesma coisa se Dominguinhos fosse tocar Bach. O músico brasileiro não tem estudo, é formado na raça. Nasce com o talento e o desenvolve sozinho. Não é veloz na técnica, mas cria um estilo único de soar, de dar o acento e a intenção. O ideal seria criar escolas de sanfona nas regiões como esta em que estamos.

Traçando um paralelo com a música pop, assim como Jimi Hendrix contribuiu para o aprimoramento dos amplificadores Marshall, com apenas 22 anos o italiano foi chamado para ser conselheiro musical da fabricante das sanfonas Scandalli, desenvolvendo novos instrumentos e aprimorando a qualidade e seus mecanismos. Não demorou para tornar-se sócio da empresa. Desde 2006 é presidente da CIA. A sigla é a mesma da agência secreta americana, mas trata-se da Confederação Internacional dos Acordeonistas.

Já agendei para 2018 a Copa Mundial da CIA no Brasil. Ainda falta um pouco, mas nossa agenda já está tomada até 2017 adianta.

O repertório de números eruditos de Mirco Patarini destoava do clima sertanejo local, embalado por forró e baião. Vestindo terno e gravata, o virtuose do instrumento teve atitudes dignas do personagem mais ilustre da pequena cidade de cerca de 250 mil habitantes, às margens do Rio São Francisco. Mas quase que volta para o hotel sem fazer soar uma nota. Em Juazeiro quase não chove. Porém, quando a água cai, vem rachando. Às 18h, duas horas antes da hora marcada para o show, uma tempestade com ventos fortes derrubou uma árvore ao lado do centro cultural, que caiu em cima da fiação da rua e cortou a energia. Sem luz, os organizadores chegaram a cogitar o cancelamento da estreia. Em poucas horas, carros de som saíram pela cidade divulgando em alto e bom volume a todos os habitantes que o evento seria adiado para as 21h30. Será que João Gilberto aceitaria isso? Patarini nem ligou. Cerca de 100 pessoas ficaram de fora. Fazendo muito barulho para entrar. Barulho que não agradaria a João Gilberto.

O primeiro Festival Internacional da Sanfona segue até sábado, com shows de Dominguinhos, Renato Borghetti e Targino Gondim.

Leandro Souto Maior viajou a convite do festival