Vencedora do 'American Idol', Kelly Clarkson recruta a nata do pop

Braulio Lorentz, Jornal do Brasil

RIO - Um dia o mundo ainda vai descobrir por que Kelly Clarkson tanto grita. Mesma sabendo que as paradas a querem bem melhor quando suas canções são tomadas por declarações de amor bobinhas proferidas em quase sussurros, a cantora americana insiste em se esgoelar cada vez mais. Com lançamento nesta terça-feira nos Estados Unidos, All I ever wanted não tem o que os fãs mais desejam. Das 14 faixas do quarto álbum da loura, apenas duas são baladas como as que a consagraram: If no one will listen e Already gone.

De todas as edições brasileiras e americanas da grife American Idol, apenas uma artista fez sucesso no Brasil. Então com 20 anos, Kelly venceu o primeiro programa, exibido nos Estados Unidos em 2002, e subiu ao cume das paradas brasileiras quatro anos depois. Não foi preciso muito esforço para se tornar a artista mais tocada nas rádios do Rio e de São Paulo em 2006. Because of you foi a primeira na contagem da empresa de monitoração Crowley e a pegajosíssima Breakaway cravou o 16º posto.

Salto recorde nas paradas

Para os fãs da cantora, é como se a lourinha tivesse ficado de fora do mercado por três anos. Nesse hiato, o cabelo (preto) e o som angustiado e sem a mesma glicose do bem-sucedido Breakaway fizeram com que My december fosse um estágio a ser esquecido. Sem hits, o álbum lançado em 2007 trazia uma onda new metaleira que justificava as roupas pretas e maquiagem para lá de carregada. Todas as faixas tinham Kelly entre os compositores. Diretor da RCA Records, Clive Davis tentou dar o recado e remodelar em vão o som da contratada.

Os sinais de reconciliação com o pop de outrora estão expostos já no primeiro single. My life would suck without you remete à eficiente e levemente pesada Since u been gone, não só por ser cria de Max Martin, conhecido por seu trabalho com boy bands.

Ele produz o disco, toca guitarra e pilota os sintetizadores. A semelhança com o hit antigo deu a entender que a Kelly em sua versão pop estava de volta. Na cola dessa impressão, veio uma euforia que fez a faixa bater recorde. Nunca na história daquela Billboard uma artista pulou uma distância tão grande. My life... foi, sem escalas, da 97ª para a primeira posição da prestigiada lista Hot 100 em apenas uma semana.

Nomes do novo pop americano, Katy I kissed a girl Perry e Ryan Apologize Tedder, do OneRepublic, engordam a lista de colaboradores. Katy se une aos também hitmakers Greg Wells (Pink, Jamie Cullum) e Kara DioGuardi (Celine Dion, Pussycat Dolls) na irresistivelmente genérica I do not hook up. O sucesso é inevitável.

Tedder transforma a inquietação de Kelly em algo vendável em xaropadas como Save you, Impossible e Already gone. Sem nenhum parceiro popstar entre os autores, I want you mostra que o arsenal de Kelly como compositora não é de todo ruim. Ao lado do sueco Jaokim Ahlund, membro dos grupos Teddybears e Caesars, ela dá mais uma prova de que retornou de vez.