Diretora belga Chantal Akerman ganha retrospectiva no Brasil

Bolívar Torres, Jornal do Brasil

RIO - Numa espécie de making of de seu filme mais famoso, Jeanne Dielman, 23 quai Du commerce, 1080 Bruxelles (1975), vê-se a diretora belga Chantal Akerman, no início da carreira, dirigindo a atriz Delphine Seyrig, estrela do cinema francês. Sem se intimidar com a fama da atriz, a então jovem cineasta a orienta com autoridade. Com precisão de gestos e palavras, mostra que, mesmo sabendo que o longa irá mudar para sempre a imagem de Seyrig, não está disposta a abrir mão de suas convicções. O episódio é representativo da trajetória da autora, cuja carreira é marcada pela intransigência artística diante das imposições do mercado e a firme crença na independência criativa. Tais características podem ser melhor compreendidas graças à primeira retrospectiva no Brasil dedicada à artista, com início nesta terça-feira, no CCBB. Além de 20 filmes da belga, a mostra O cinema de Chantal Akerman apresenta a diretora, que participa de um encontro com o público no sábado. Aos 57 anos, ela admite que não tem mais a mesma energia exibida nas filmagens de Jeanne Dilman. E se mostra cansada com as dificuldades de impor uma via autoral na indústria do cinema.

Para um cineasta a juventude é um grande trunfo, pois ainda não conhece o mercado e não tem medo de enfrentá-lo sentencia a diretora ao Jornal do Brasil, lembrando dos tempos em que desafiava Delphine Seyrig no set. Depois ficou mais difícil. Descobri que o mercado pode fazer picadinho das pessoas. Estou desiludida com o cinema, perdi minha força. E agora preciso reencontrá-la. Fazer um filme se tornou algo tão pesado e chato, que traz tanta complicação. E agora o Sarkozy (Nicolas, atual presidente francês) quer que tudo seja rentável, cinema, museu, concerto... Não sei que lugar posso me encontrar num mundo assim. Ainda bem que existe o vídeo, que me permite fazer filmes sozinha.

A retrospectiva traz três fases da diretora: a tragicomédia, iniciada nos anos 70; os filmes experimentais, nos quais estabelece reflexões sobre o próprio ato criativo; e o retorno à narrativa, com A prisioneira, de 1999. Todos os períodos, porém, são atravessados pelos temas obsessivos da cineasta, como a condição feminina e a questão judaica. Seu Jeanne Dilman foi saudado pelo The New York Times como A primeira obra-prima do feminino na história do cinema . Apesar de abordar constantemente este universo e filmar com equipes compostas em sua maioria por mulheres, Chantal não acredita que possa existir um cinema feminino .

Isso seria colocar todas as diretoras num mesmo saco defende a cineasta. O que sei é que cada mulher faz um filme diferente e que existe um cinema experimental e um cinema comercial.

Nos anos 70, depois de passar uma temporada em Nova York, o cinema de Chantal foi influenciado pela arte moderna, principalmente pelo estruturalismo de Stan Brakhage e Jonas Merkas. Nem sempre fáceis de assistir, seus filmes fazem um trabalho de superfície , questionam a aparência das coisas com longos planos fixos e travellings laterais.

Em longas como Eu tu ele ela (1974) e Notícias de casa (1977), Chantal se transforma no principal personagem de sua própria obra, colocando a si mesma em cena. Em seus documentários mais recentes, força um conflito entre o íntimo e o político, o sofrimento interno e o interesse público.

A questão judaica aparece principalmente na angústia de sua mãe, uma refugiada de Auschwitz que escapou milagrosamente da perseguição nazista. Em , seu último documentário, Chantal reflete sobre a maneira possível de filmar Israel e o trauma do holocausto. Para a diretora, o cinema é um instrumento de memória.

Como filha de sobreviventes, o holocausto sempre acaba aparecendo em minha obra, mas de maneira oblíqua. Não me interesso em mostrar os campos e todo o horror. Isso não pode ser imaginado.

Como a neurose de sua mãe, que se recusa a falar sobre o assunto, apesar de conviver diariamente com o trauma, a abordagem oblíqua de Akerman não mostra a ferida de forma explícita, mas por sinais. Ela acredita que as terríveis imagens documentais de Auschwitz, surgidas logo após a guerra, não mudaram a maneira de fazer cinema nem o mundo.

Para os judeus, foi o fim da humanidade, mas ninguém deseja ficar de frente com o horror. As pessoas não querem saber, mas sabem o tempo todo reflete. Sou a prova de que filhos de sobreviventes não são crianças como as outras. Fui um bebê que já nasceu velho.

Recentemente, Chantal Akerman se envolveu numa polêmica com seu principal mentor, Jean-Luc Godard. No Festival de Berlim, a cineasta disse que o último filme do colega francês, Nossa música (2004), era anti-semita. Mais tarde, Godard respondeu criticando a maneira como ela filmou a pobreza em Do outro lado (2002).

Não vou dizer que Godard é anti-semita, mas para mim está claro que ele tem algo mal resolvido com os judeus e com Israel afirma a cineasta. Godard determinou minha vida, então para mim foi um choque ver, no fim de sua vida, essa questão aparecer.

Chantal admite que nenhum dos dois foi correto neste episódio.

A resposta de Godard foi uma provocação, coisa de criança pondera, aos risos. Assim como eu, ele passou a vida provocando. Mas também não me comportei muito bem. Talvez devesse ter lhe telefonado antes de criticar publicamente seu filme.