Diretor ganhador da Palma de Ouro 2008 dá lições de cinema e de vida

Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

RIO - A derrota na corrida pelo Oscar de Filme Estrangeiro não foi nenhuma surpresa para Laurent Cantet, autor de Entre os muros da escola, filme que virou um dos favoritos dos bolões da temporada de prêmios desde a conquista da Palma de Ouro do Festival de Cannes, em maio do ano passado. Inesperado mesmo foi perder o galardão americano, entregue em fevereiro, para um longa-metragem sobre o qual se conhecia muito pouco ou quase nada o japonês Departures, de Yojiro Takita.

Desde o início, tínhamos a certeza de que nosso principal rival era Valsa para Bashir, o documentário em desenho animado sobre a Guerra do Líbano conta Cantet ao Jornal do Brasil, ele que está no Rio para o lançamento brasileiro de sua nova e premiada cria, nos cinemas na sexta-feira. O filme do (Ari) Folman é formidável e se alinhava com os acontecimentos recentes no Oriente Médio. Era a escolha mais óbvia.

A indicação à estatueta concedida pela Academia de Artes e Ciências de Hollywood, contudo, figura com destaque no rol de conquistas de Entre os muros da escola, drama sobre a realidade dos alunos de um colégio de Paris no qual predominam filhos de imigrantes. A lista inclui também o Cesar (o Oscar francês) de Melhor Roteiro e o Independent Spirit Award, o grande prêmio do cinema indie. Cantet confessa que sentiu bons augúrios em relação à carreira de seu filme dias antes mesmo da repercussão da primeira projeção para os críticos, em Cannes.

Em geral, quando termino um filme nunca tenho certeza se consegui fazer o que desejava realmente. Com este, ao contrário, senti uma boa sensação, especialmente em relação ao trabalho com os garotos e garotas, todos não profissionais, que interpretam os estudantes da história recorda o diretor. O segundo bom sinal veio das sessões fechadas para os compradores, em Cannes, que acontecem antes das oficiais. Vendemos o filme para quase 40 países antes mesmo de ele se tornar o favorito da imprensa. Os distribuidores conhecem o público que têm, não?

Sem soluções mágicas

Entre os muros da escola é resultado da adaptação de um livro do ex-professor François Bégaudeau, que descreve a tensa relação entre o corpo docente de uma escola pública dos subúrbios de Paris com seus alunos, de origens humildes e etnias distintas. O filme se alinha perfeitamente com o tipo de cinema perseguido por Cantet, que se apoia em personagens em constante estado de inadequação social.

Meus filmes são construídos em torno de microcosmos representativos do que acontece em nossa sociedade resume o autor de A agenda (2001), sobre um executivo que esconde o desemprego da família, com consequências trágicas, e de Em direção ao Sul (2005), que mostra um grupo de francesas endinheiradas que costuma passar férias ao lado dos nativos do Haiti. Os protagonistas sentem um grande desconforto dentro da cultura em que foram criados, desenvolvem um certo idealismo sobre a realidade.

Cantet já havia começado a desenvolver um argumento sobre um aluno problemático quando conheceu Bégaudeau durante um programa de TV. O próprio autor acabou ficando com o papel de François, professor que tenta administrar as diferenças da classe. No longa, os alunos são interpretados por estudantes da escola que serviu de cenário para o filme, selecionados depois de um ano de ensaios semanais.

Duas coisas me chamaram a atenção no livro de François: primeiro, o caráter documental do relato, já que reproduz com fidelidade a linguagem dos estudantes e a realidade em que vivem; segundo, a figura do próprio professor conciliador, que é fascinante por si mesmo enumera o diretor.

Mais do que uma crítica ao sistema de ensino francês, Entre os muros da escola se pretende um alerta sobre um problema mais abrangente, integração social.

A escola, para muitos, é vista apenas como um lugar para se aprender matemática. Mas ela tem um papel fundamental na integração de todos esses jovens na sociedade. É lá que elas deveriam ser preparadas para se tornarem cidadãos aponta o diretor, que evitou os clichês redentores dos similares americanos, como Ao mestre, com carinho (1967) e Mentes perigosas (1996). Talvez não haja uma solução mágica para o caso, como costumam indicar os filmes americanos.