Paris corta gastos nos desfiles, mas continua ditando tendências

Iesa Rodrigues, Jornal do Brasil

PARIS - Nas ruas, o trânsito para por causa das manifestações de professores e médicos, por mais investimentos na saúde e na educação. No noticiário, o anúncio da volta aos palcos pelo próprio Michael Jackson ocupa muito mais tempo do que as quedas das bolsas no mundo. Em Paris, a moda de inverno lança suas novidades, mais ou menos de acordo com as várias formas de crise do planeta.

Mais ou menos, porque estilistas como o coreano Lie Sang Bong não abrem mão do lado de fantasia na passarela. Enquanto um jovem incensado como Gareth Pugh mostrou a coleção em vídeo, com uma modelo só, e outras marcas preferiram trocar o desfile por apresentações em show-rooms, Sang Bong exibiu vestidos em tiras de plástico picotado a laser e estampado como tigre, usados com botas em couro cobre, de plataforma e cano longo, nos salões elegantes do Grand Hotel.

Temos modelos mais simples, menos conceituais, na coleção que está no site da marca apressou-se a traduzir a assistente do estilista, que não fala inglês ou francês.

A moda da grife Balmain, que evoluiu do chique para o rock graças ao talento de Christophe Decarnin, também não poupou no local, o famoso hotel Ritz. Mas reduziu o tamanho da sala, para mostrar a coleção para poucos privilegiados. Em compensação, os maiores salões do Carrousel do Louvre, especialmente construídos para abrigar os desfiles no subsolo do museu, estão ocupados pelo Tranoï, salão de vendas de acessórios e moda. Um sinal de que o caminho do Fashion Rio está certo, quando une marcas que desfilam com empresas que vendem no atacado, no Fashion Business. A fórmula é a mesma.

No alto luxo a solução é lembrar dos sucessos passados. Como fez John Galliano em Dior, usando referências antigas da marca fundada por Christian Dior, confeccionadas em tecidos modernos. Haja tailleur, cintura marcada, ombros marcados.

O mesmo processo foi visto na coleção Lanvin, que desfilou em um galpão distante dos glamurosos endereços próximos ao Palais Royal e ao Museu do Louvre. Mas o estilista Alber Elbaz acertou na nostalgia, porque combinou com sua perícia nas dobras e pregueados, que transformam vestidos em falsos tailleurs, também marcados por cintos finos. Um sinal de contenção: muitos modelos da Lanvin preciosos na frente, em tecidos adamascados ou bordados, têm costas simplesmente pretas, discretas.

O russo Gaspard Yurkievich confirmou o talento para agradar a uma clientela jovem e requintada, que gosta dos contrastes de calças e tecidos masculinos, com tops estilo combinação com alças pretas e decotes bordados ou rendados. O tema era o código de vestimenta dos anos 30, misturado com coreografias de Bob Fosse no espetáculo Cabaré.

A dupla de irmãs Ezra e Tuba Cetu veio de Istambul para estrear com a grife Etcetura. Elas tentaram lembrar de tradições turcas, como o primeiro livro de História, Alexiad, escrito no século 11, e os mosaicos da igreja de Santa Sofia. Estas inspirações resultam em roupas muito parecidas com tudo o que já se vê nas passarelas. Um pouco Balenciaga, um pouco Dior: casacos pretos cinturados sobre bodies com capuz e meias por baixo, com aplicações de quadrados dourados.

Paris continua a base de lançamento da moda. Se as novidades sairão para as ruas é difícil prever. Em todo caso, nota-se a sensatez de reduzir custos de produção, alugar lugares menores e mais baratos. Para não acabar com as extravagâncias, as plumas, rendas e proporções loucas, o lado arte da moda que desfila até a próxima semana em Paris.