Temporada de música clássica começa com atraso

Monique Cardoso, Jornal do Brasil

RIO - Nas salas de concerto em qualquer lugar do mundo, quando a apresentação atrasa, a plateia não perdoa. Reclama, batendo palmas ritmadas para chamar músicos e regente ao palco. Mas e no caso de a temporada inteira atrasar, o que os melômanos têm a fazer? À mercê de sobressaltos de todos os tipos, o calendário de música clássica abre oficialmente nesta sexta-feira, na Sala Cecília Meireles, mas o o que se anuncia é mais um ano de cenário risível. Até agora, somente a OSB divulgou um programa anual, ainda que não esteja vendendo assinaturas para o segundo semestre. Outras orquestras e programadores tradicionais, como a própria Sala e a Dell'Arte, ainda não divulgaram uma lista definitiva de atrações. Há artistas contratados ainda sem palco para tocar. O aviso sujeito a alterações nunca foi tão destacado e repetido.

No ano em que o Dia da Música Clássica, comemorado nesta quinta-feira, 5 de março, em homenagem ao aniversário de Villa-Lobos, ganhou alcance nacional, o calendário quase não terá estrelas de primeira grandeza. Crise econômica, obras no Teatro Municipal e a indefinição sobre o uso da Cidade da Música, que permanece de portas fechadas, são algumas das justificativas que a plateia terá de engolir. A situação da ópera é ainda pior. Montagens encenadas, só nas projeções do Metropolitan Opera House (Met) exibidas no cinema. Caso as obras do Municipal não atrasem, a reabertura será em julho, mas não há sinal de fumaça da festa e de uma agenda para o resto do ano que, por causa do centenário da casa, deveria ser grandiosa e já estar adiantada. A orquestra e o coro fazem concertos na Candelária, a partir de sábado. Do balé não se tem notícia.

Estamos com uma programação alternativa pelo estado do Rio. Mesmo que os contratos só sejam assinados mais perto dos concertos, a temporada do centenário do teatro está sendo alinhavada promete o diretor artístico da casa, o maestro Roberto Minczuk.

Por e-mail, a assessoria de imprensa da Secretaria Estadual de Cultura informa que só divulgou alguns concertos em março e abril porque a temporada ainda está sendo elaborada . Minczuk divide seu tempo com outro patrimônio musical da cidade, a OSB, que tem como parceira a prefeitura do Rio. Com patrocínios que somam R$ 21 milhões, a orquestra parece não ter sofrido qualquer marola da crise.

Não precisamos mexer em nada, as atrações estão mantidas. Abrimos a temporada na Sala (dia 13, com a pianista Maria João Pires), mas iremos para o Municipal a partir do meio do ano e, se Deus quiser, ocuparemos nossa querida Cidade da Música torce Minczuk.

Sem a mesma certeza de ter as datas acordadas no Municipal, Dell'Arte e Petrobras Sinfônica preferiram não anunciar concertos naquele palco. As três apresentações que a Osesp faria no Rio também não estão confirmadas. Responsável pela vinda de boa parte de artistas clássicos internacionais para o Rio, a Dell'Arte mantém seus assinantes em compasso de espera, assim como seus contratados. O aclamado pianista russo Arcadi Volodos, um dos poucos nomes realmente fortes para 2009, não tem ainda palco certo para tocar em outubro, quando estará na cidade. A série Concertos Internacionais só vai ter início em agosto e o anúncio do programa deve ser feito no mês que vem.

Para não adiar mais o início das atividades, o diretor executivo da produtora, Steffen Dauelsberg, criou a série Pianíssimo, exclusivamente para a Sala. A estréia é dia 25, com o irlandês Barry Douglas. O empresário também vê no João Caetano uma opção para acomodar parte dos concertos dos próximos meses. E diz até gostar desta crise.

Enquanto uns choram, outros vendem lenços. Aproveitamos a crise para amadurecer parâmetros pondera Dauelsberg. Acho prudente o Teatro esperar o fim da obra para confirmar as datas. Talvez o público vá torcer nariz para uma ou outra apresentação fora de lá e é uma pena não ter a Cidade da Música. É difícil encontrar adequação, mas vamos superar esse ciclo.

Diretor da Sala Cecília Meireles, João Guilherme Ripper teve de acomodar os sem-palco antes de criar a temporada da casa, a qual garante estar fechada, apesar de apenas o primeiro concerto e os temas dos ciclos terem sido anunciados. O resto aguarda a assinatura de patrocínios. A Sala abre as portas com o pianista Sérgio Monteiro, a OSB e o maestro Roberto Duarte.

Conseguimos convidar solistas e grupos, faremos o primeiro concerto ainda sem patrocínio, mas não quer dizer que não haverá. A Petrobras deve renovar seu apoio e estamos buscando outros parceiros assegura Ripper.

A orquestra Petrobras Sinfônica, que conta com patrocínio continuado e o nome da estatal, também ainda não assinou o contrato que determina o repasse de verbas deste ano. O grupo liderado por Isaac Karabtchevsky não vai ter nenhum nome de peso para abrilhantar a única série vendida até agora, a inédita Djanira. O que é uma pena diante de um repertório bem escolhido e nada convencional, usando com criatividade efemérides como os 200 anos de nascimento de Mendelssohn e os 200 anos de morte de Haydn. A orquestra vai investir em séries nas igrejas no Rio e em dois projetos de acesso à música clássica para crianças, jovens e público de baixa renda. O primeiro concerto é dia 21, mas o dinheiro do orçamento, pouco mais de R$ 8 milhões, ainda não pingou.

A crise nos afetou no cronograma. Como ninguém sabia o que aconteceria, a ordem foi segurar gastos. E, na música clássica, a agenda dos artistas é decidida com antecedência. diz o spalla da Opes, Felipe Prazeres, integrante do conselho administrativo do conjunto sinfônico. Resolvemos nos voltar para dentro. Estamos conseguindo cumprir compromissos, mas o cinto está começando a apertar.