Teatro: Susanna Kruger encarna Laura Alvim com perfeição

Macksen Luiz, Jornal do Brasil

RIO - O projeto que parece, a princípio, se reduzir à visita teatral guiada pelos cômodos da casa de Laura Alvim surpreende por se revelar um espetáculo com formato cênico que, mesmo atendendo à ideia inicial, transforma-se em trajetória de efeito dramático. Casa de Laura propõe mais do que um percurso pela atual Casa de Cultura Laura Alvim, mas a relação que a atriz frustrada, a mecenas sem posses, a mulher solitário e a filha que dedica sentimentos contraditórios ao pai autoritário manteve com seu espaço de vida. Ao estabelecer o roteiro do percurso, o monólogo de Anamaria Nunes captura uma existência indissociável da sua morada.

Ao entrar em cena, a plateia de 15 espectadores andantes se defronta com Laura na velhice, relembrando o passado, folheando programas de teatro, dialogando com a fotografia do pai, uma voz sem ressonância, imagem desfocada que lembra antiga diva dos palcos. À medida que a narrativa avança, em tempos contrastados, velhice e juventude, os cômodos se desvendam aos acólitos desta representação de sonhos frustrados, mas persistentes, nos ambientes em que esses sonhos se confinaram. Na sala, é servido ao público chá com bolo, vestíbulo para que se chegue à parte mais íntima da casa e da vida de Laura. Depois do monástico quarto, chega-se ao banheiro, quase um camarim de teatro, onde Laura parece ter chegado mais próximo na construção de seus quiméricos desejos. Com esta envolvência da arquitetura emocional, a autora é capaz de biografar este personagem real tão peculiar, além de referenciá-la ao espaço físico onde sempre viveu. A atriz Susanna Kruger empresta a sua marcante presença, com projeção vocal vigorosa e trabalho corporal bem delineado, que se complementa por máscara reforçada pela maquiagem das sobrancelhas. As mutações de tempo, registradas pela alternância corporal e a modulação da voz, equilibram a interpretação de Susanna Kruger entre um certo tom arrebatado e o detalhismo do pequeno gesto, em atuação intensamente sutil.