Compositor Carlos Fernando é homenageado em Recife

Agência Brasil

RECIFE - Ele misturou o frevo à MPB, ao jazz e ao forró. Trouxe para o centenário ritmo pernambucano letras que não restringiam a música ao carnaval. Aos 30 anos de carreira, o caruarense Carlos Fernando, 67 anos, é um dos homenageados deste ano do carnaval de Recife, ao lado do criador do Galo da Madrugada, Enéas Freire, e do artista plástico Cícero Dias.

- Sou o único homenageado vivo. Isso é uma grande responsabilidade. Fico muito honrado. Até porque moro no Rio. Mas sempre venho passar o carnaval em Recife. Volto grávido de frevo, mas vou dar a luz lá, no silêncio da reserva ecológica onde moro em Niterói - conta o compositor, que escreveu músicas como Banho de Cheiro, famosa na interpretação de Elba Ramalho, e lançou o disco Asas da América, em 1980, com frevos cantados por artistas como Chico Buarque e Gilberto Gil.

Na década de 60, ainda em Recife, Carlos Fernando participou do Movimento de Cultura Popular de Pernambuco, um dos focos da resistência ao governo militar no estado.

- Hoje, politicamente, o que me incomoda é esse orçamento público pequeno para o frevo e para qualquer manifestação cultural. O governo, a iniciativa privada, a indústria do turismo precisam se associar para mudar isso.

Na maratona de desfiles, shows e festas, Carlos Fernando se mantém firme na cidade, sempre fantasiado e bem-humorado, principalmente nos bate-papos com os músicos da nova geração. Foi assim, nos bastidores da abertura do carnaval, quando um grupo de novos artistas pernambucanos, liderados pelo cantor Ortinho, apresentaram o show Nave do Frevo, com releituras do trabalho do 'mestre' no ritmo do rock, punk e do manguebeat.

- Não tive a menor intenção de revolucionar. Apenas quis fazer. É a obrigação de todo criador, cineasta, compositor, artista plástico, ele precisa ser ousado. Talvez eu tenha sido ousado. Mas fica por conta da crítica, eu não posso me auto-elogiar - brinca Carlos Fernando, que reclama da falta de discos com suas composições nas lojas, mesmo no ano da homenagem. Segundo o compositor, uma reedição de Asas da América é esperada para este ano.

Da nova geração de compositores de frevo, Carlos Fernando destaca o trabalho do maestro Spok, da Spok Frevo Orquestra e do maestro Forró, da Orquestra da Bomba do Hemetério.

- O Spok está levando o frevo a países como a Índia. Quando, há 50 anos, a gente pensava em frevo na Índia? O maestro Forró também, que é uma pessoa chaplinianamente falando interessantíssima, está levando o frevo pra ser uma coisa mais universal e brasileira.

Para renovar o frevo, Carlos Fernando diz que é necessário criatividade, um olhar especial para o piano e uma letra próxima da juventude.

- O frevo precisa atingir outras pessoas, outras camadas, outros tempos. Não pode ser refém do carnaval. Precisamos cuidar da melodia, da letra, dos arranjos, da capa dos discos. O frevo exige mistério. O frevo é multicolorido.