'Biógrafo oficial' do Oscar, Robert Osborne não arrisca palpites

Franz Valla, Jornal do Brasil

NOVA YORK - Em 1986, quando o Oscar estava prestes a atingir sua 60ª edição, os executivos da academia perceberam que não havia ainda um registro oficial de todas as indicações passadas. Só se sabia ao certo quem venceu e havia muita dificuldade de se apurar com exatidão quem foi indicado desde os primórdios do evento. Para dirimir todas as dúvidas e, de quebra, faturar mais uma receita, decidiu-se publicar uma biografia oficial da cerimônia. Para compilar a obra foi escalado o jornalista Robert Osborne, uma escolha que não foi feita ao acaso. O veterano colunista de cinema já publicara vários livros sobre a instituição e é considerado até hoje uma autoridade no assunto. O livro, que chega à sua quinta edição cobrindo as oito décadas da festa, é refeito a cada cinco anos. Osborne, que tambem foi ator, mantém uma coluna semanal na Hollywood Reporter, além de ser apresentador e responsável pela programação do TCM (Turner Clasic Movies). Sua posição de guardião da história do Oscar lhe rendeu em 2006 uma estrela na Calçada da Fama de Hollywod.

Em seu apartamento em Manhattan, bem em frente ao Carnegie Hall, Osborne diz que sua agenda não vai permitir que atue mais uma vez como o recepcionista oficial da cerimônia é ele quem anuncia a chegada dos artistas ao tapete vermelho do Kodak Theater. O senhor grisalho de 77 anos lembra bem quando decidiu tentar a carreira de ator, nos anos 50. Após receber um diploma em jornalismo foi bater na porta da Desilu, produtora de seriados para a televisão de Lucille Ball, estrela do seriado I love Lucy, sua principal incentivadora no jornalismo.

Acho que ela se convenceu disso ao me ver interpretar brinca Osborne.

A amizade com Lucille abriu caminho junto às celebridades de Hollywood: nunca houve festa, filmagem ou reunião em que sua presença não fosse permitida. Tudo isso porque era ao mesmo tempo discreto e leal ao meio artístico. O que lhe rendeu problemas com os editores da Hollywood Reporter:

Sabia que Rock Hudson tinha Aids muito antes de todos, mas não publiquei nada recorda. Infelizmente a sociedade mudou muito e o interesse em acompanhar passo a passo a vida dos artistas é suprido com facilidade pelos inúmeros canais de televisão e revistas de entretenimento. Antes havia uma aura de mistério em relação aos artistas. Hoje, Tom Cruise faz um filme e desfila por todos os canais de TV, vai a Oprah Winfrey, ao David Letterman, ao Jay Leno, aparece em todas capas de revistas e acaba por saturar sua imagem.

A entrevista segue no Lighthouse Theater, onde Osborne faz a apresentação dos curtas indicados para o Oscar da categoria. Logo a seguir, o jornalista dá início à tarde de autógrafos de seu livro. Entre uma canetada e outra, defende as indicações deste ano.

Todos os anos ouvimos reclamações quanto às indicações. Fala-se que este filme ou aquele artista foi esnobado, mas não vejo ninguém dizer que as nomeações não foram merecidas pondera. Infelizmente só se pode indicar cinco em cada área. Quem ficou de fora não pode se queixar porque ninguém está sendo privilegiado em detrimento de outro. Clint Eastwood, por exemplo, é endeusado pela academia, assim tambem como Cate Blanchet. Os dois tiveram fortes atuações no ano passado e não foram indicados.

Osborne não arrisca palpites sobre possíveis vencedores, mas abre uma exceção para fazer uma defesa apaixonada da indicação póstuma de Heath Ledger:

Ele era um artista muito sensível, que estava crescendo muito na carreira. Sua indicação não foi um ato de condescendência. Ele teria sido indicado de uma forma ou de outra porque conseguiu um feito extraordinário com este papel. Soube dar dimensão e dramaticidade humana a um vilão que acabou sendo central para Batman. Acredito que levará o prêmio.