Milton Hatoum lança seu primeiro livro de textos breves

Juliana Krapp, JB Online

RIO - Fato um tanto obscuro de sua biografia, o début de Milton Hatoum na experiência literária foi como contista. Era a década de 70, e o amazonense, que estudava arquitetura em São Paulo, dedicava-se às narrativas breves. Não demorou, porém, para que fossem todas para o lixo, antes mesmo da apreciação pública.

Fui um contista inédito brinca Hatoum, de 56 anos, um dos autores nacionais que mais vende livros hoje, no Brasil e no exterior. Ele justifica: Os textos eram plágios deliberados, imitações de [Julio] Cortázar, [Guy de] Maupassant, [Jorge Luis] Borges. Eu ainda não tinha encontrado a minha voz.

Três romances e uma novela depois todos publicados com sucesso Hatoum enfim retoma sua vocação outrora renegada: lança esta semana, pela Companhia das Letras, A cidade ilhada, seu primeiro livro de contos. Aproveita para acertar uma dívida de gratidão com o texto curto. Foi por meio dele que o amazonense se tornou, também, um leitor. Ganhou gosto pela coisa debruçado sobre os Clássicos Jackson, coleção de livros famosa na década de 1950, na qual havia, entre outras, as obras completas de Machado de Assis. Leu, de saída, A parasita azul , que o levou a enterrar a cara na sequência completa de contos do Bruxo. Estava definitivamente seduzido.

Duas décadas na gaveta

Houve também, na mesma época, a intervenção da professora. Eis que Hatoum estudava francês com a consulesa da França em Manaus. Entre aulas de passé composé e passé simple, a enseignante recorreu à literatura: ajudou o aluno a traduzir um conto escrito na língua de Proust. Era nada menos que Um coração simples , de Gustave Flaubert.

Fiquei maravilhado conta o escritor, que viria a traduzir esse mesmo texto, em parceria com Samuel Titan Jr., para a edição de Três contos publicada pela Cosac Naify. O que acontecia na França em meados do século 19 estava acontecendo em 1967, em Manaus, do ponto de vista das relações sociais e de trabalho.

A verdade é que, ainda que dedicado quase que integralmente aos romances, Hatoum nunca perdeu de vista sua verve para o conto. Tanto que uma das histórias de A cidade ilhada foi escrita há 18 anos, assim que concluiu Relato de um certo oriente, seu primeiro romance. Outras foram criadas no decorrer da década de 1990, e apenas duas delas foram escritas recentemente. Hatoum brinca com os números:

A cidade ilhada reúne 18 contos que selecionei nos últimos 18 anos.

Destes, seis são inéditos em português. Os outros já foram publicados em revistas, jornais e antologias. Não foi simples editá-los: o autor fez questão de reescrever todos.

Alguns eu mudei tanto que se tornaram outros contos diz. Não costumo demorar para escrever a primeira versão de uma história, mas demoro muito para repensar aquilo que escrevi. Passo dois ou três meses refazendo e relendo um texto.

A demora tem uma explicação que se confunde com sua postura como escritor:

Você tem que ser radical na literatura. O que é mediano o leitor percebe. Quando organizei esse livro, aproveitei para jogar uns quatro contos no lixo relata. Além disso, eu não gosto de publicar muito. Não penso em ter 20, 30 livros editados. Quando você tem essa quantidade de títulos, ninguém se lembra de nenhum deles. Tem muito livro por aí. Há uma crise: a não-literatura, disfarçada de literatura, virou uma coisa banalizada. Hoje qualquer pessoa é escritor: as modelos, as apresentadoras de talk show, todo mundo.

Trânsito de personagens

A maioria dos contos de A cidade ilhada tem como cenário a mesma Manaus cosmopolita que costuma aparecer em sua obra, cidade habitada pela memória inventada de narradores nativos e estrangeiros (e, é claro, do próprio autor), e também pelo contraste entre esplendor e miséria, pelo fascínio encarnado na exuberância natural da região, com seus rios e mistérios, e a decadência que a consumiu nas últimas décadas.

O meu assunto é a memória. Na verdade, é a invenção dessa memória de narradores que estão sempre em trânsito numa sociedade de conflitos define.

O trânsito se dá também em outro sentido na coletânea de contos: vez ou outra reaparece um personagem já visto em seus livros anteriores. É o caso do tio Ranulfo, original de Cinzas do Norte, que surge em dois momentos de A cidade ilhada.

Os escritores do século 19 já faziam isso. [William] Faulkner também usava esse recurso, tinha mania de fazer os personagens circularem de romances para contos, de romances para outros romances lembra. E o tio Ran é um dos meus personagens favoritos. Ele provavelmente vai aparecer de novo.

Se o cenário e os personagens soam familiares, há algumas novidades de tom em A cidade ilhada. Pois, em vez da violência tão impetuosa que permeia suas histórias anteriores, nos contos reverbera um lirismo que, se não é novidade (ele parece estar sempre à espreita nos textos de Hatoum), aqui ousa se aproximar cada vez mais do humor.

Meus contos refletem mais a vida nômade, que é também a minha [antes de se tornar um autor consagrado, Hatoum viveu por alguns anos na Europa; depois, deu aulas de literatura nos Estados Unidos, e hoje mora em São Paulo] comenta. Têm humor e leveza porque dizem respeito à minha vida de andarilho, que foi uma época de pobreza, mas de muita alegria.

Um japonês no Rio Negro

A leveza está em histórias como Dançarinos na última noite , a preferida de Hatoum, no qual o empregado de um hotel encontra uma pequena fortuna dentro de uma jiboia; em vez de mudar de vida, decide viver como um rico, por apenas uma noite. Ou em Encontros na península , em que o protagonista ensina Machado de Assis a uma viúva espanhola, que quer estudar a obra do brasileiro para se vingar do ex-amante um dos contos nos quais Hatoum se distancia de Manaus e de seus personagens habituais.

Mas o momento de maior lirismo está talvez em Um oriental na vastidão , outro no rol de preferidos do escritor: um professor japonês realiza, de forma inusitada, o maior sonho de sua vida, conhecer o Rio Negro.

Como de praxe, em todos os contos se mistura a história do próprio Hatoum, suas memórias recriadas .

Um tema primordial para mim é a alteridade, o olhar sobre o outro, que pode ser o estrangeiro, mas também o outro de nossa própria identidade, o nosso duplo reflete. O duplo é um tema existente desde o romantismo, mas é extremamente contemporâneo. Em qualquer sondagem sobre identidade você vai se deparar com a sua própria face num espelho quebrado e embaçado.

Trata-se do duplo que também está na estrutura dos contos:

O conto, na acepção contemporânea, começa contando uma história para atrair o leitor, enquanto, secretamente, conta uma outra. E essa história que guarda o mistério é a que interessa explica. A revelação de uma trama inaudita, já no começo, é o que importa ao conto contemporâneo. Não é mais uma história com uma surpresa no final, pois isso era o conto do século 19.

É neste jogo de tramas paralelas que reside o teor autobiográfico de suas histórias. A mais próxima de sua versão real ( Manaus, Bombaim, Palo Alto ), aliás, é também uma das mais divertidas, quase anedótica: um escritor amazonense recebe um telefonema misterioso de um assessor do governo, pedindo que receba a visita de um almirante indiano. O estrangeiro, segundo o funcionário, quer simplesmente conhecer um homem de letras da cidade. O encontro, no apartamento do escritor, é embaraçoso: um temporal deixa goteiras à mostra, e Leon, seu gato amarelo, insiste em se enroscar na calça impoluta do almirante. Anos depois, o autor descobre que esse é, na verdade, um jornalista disfarçado, e que descrevera num periódico indiano que a casa do escritor mais parecia um chiqueiro.

De fato é o conto mais autobiográfico do livro revela.

Cursos na edícula

Mas apesar da experiência de 20 anos como prosador e da demonstração de capacidade analítica do assunto Hatoum não vê diminuir a angústia ao manejar suas estratégias:

Escrever contos não é fácil. Se fosse, eu já teria publicado esse livro antes diverte-se. É muito mais fácil errar um conto do que um romance. Neste último, se tiver algumas falhas, é possível consertá-las. No conto, não.

Agora que cumpriu a tarefa, Hatoum vai se dedicar a dois projetos: a publicação de um livro de crônicas ( Tomei gosto por elas, é um ótimo exercício para sentir inveja do Rubem Braga; esse sim era genial , diz ele) e o começo de uma série de cursos sobre literatura, em março. Não serão, porém, oficinas literárias, nas quais o escritor não acredita:

Romancista não precisa de curso para escrever.

Serão, em suas próprias palavras, encontros intimistas para debates : a reunião de cerca de seis pessoas, na sua edícula-escritório, para conversas sobre livros e autores.

Gosto do contato com o público. Não dá para só ouvir elogios conclui.