'Esta é a nossa canção' atrai mais de 3 mil pessoas antes da estreia

Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil

RIO - Os créditos que abonam a primeira montagem brasileira para a comédia romântica e musical Esta é a nossa canção não são poucos. Após estourar nos palcos da Broadway em mais de mil apresentações, circular por diversos países e celebrar, em 2009, 30 anos de existência, o espetáculo, que chega ao Rio em 4 de março, acaba de bater o recorde de ingressos antecipados vendidos para o Teatro Maison de France posto que até então cabia à encenação para Mademoiselle Chanel, estrelada por Marília Pêra, em 2006.

Com cerca de 3 mil bilhetes assegurados, a encenação, a ser comandada pelos americanos Charles Randolph-Wright (direção) e Ken Roberson (coreografia), é fruto de um trabalho em conjunto tecido por três grandes nomes da Broadway: o dramaturgo Neil Simon (ganhador de três prêmios Tony e autor de Sweet Charity e The Odd Couple), o compositor Marvin Hamlisch (vencedor de três Oscar, Pullitzer, Tony, Emmy, Grammy e autor da trilha para Golpe de mestre) e a letrista Carole Bayer Sager (Oscar, Grammy e dois Globos de Ouro), que assinou os espetáculos Dancin', The boy from Oz, Georgy, entre outros, e teve suas canções gravadas por Frank Sinatra, Stevie Wonder, Barbra Streisand, Elton John, Liza Minelli e Celine Dion.

É realmente uma grande surpresa toda essa procura. Somos um teatro de médio porte e já temos praticamente 10 sessões lotadas. As vendas crescem exponencialmente vibra o diretor do espaço, o francês Cedric Gottesman. Esses números nos ajudam a planejar o desempenho da temporada, que, a princípio, irá durar seis meses.

O musical que explora a performance coreografada ilustra a tempestuosa relação entre um consagrado compositor e uma talentosa letrista. Em seus bem-humorados encontros e desencontros, Vernon (Tadeu Aguiar, também idealizador da versão), Sonia (Amanda Acosta) e seus alter-egos emendam canções românticas que emprestam seus desenhos melódicos para embalar a história de um casal que se ama, mas que vive aos frangalhos por suas diferenças. Para Charles Randolph-Wright, o espetáculo fala da capacidade do homem de criar e de reinventar a sua própria vida a partir do amor.

O musical lida com as realidades e dificuldades que se desenrolam quando duas personalidades extremamente diferentes se apaixonam explica o diretor ao Jornal do Brasil, direto de Charlotte, na Carolina do Sul, de onde segue para nova York e em sequência para o Rio. É sobre como passar por cima de grandes obstáculos para fazer um relacionamento funcionar. Sinto, talvez, que não se trata de um show sobre um relacionamento amoroso, mas, sim, sobre todo e qualquer relacionamento humano.

O diretor conta que para manter a integridade e transportar um espetáculo montado na Nova York da década de 70 para uma cidade como o Rio, três décadas após sua estreia, é preciso respeitar a essência da obra original e estar ciente das características do bairro e do teatro em que a peça será montada, assim como em relação ao que está acontecendo na cidade. Tarefa fundamental para garantir transparência e credibilidade à jornada.

Tudo isso afeta o espetáculo. Muito porque o teatro é a forma de arte que realmente estabelece uma relação direta e imediata entre os artistas e o público destaca Randolph-Wright. É preciso ter cuidado para que a alma e o espírito do espetáculo não se percam, estejam intactas. Não importa o que aconteça, se a essência estiver mantida o show irá soar como deve.

O diretor diz que a adaptação para o Brasil e para a nossa língua foi um componente excitante e desafiador. Randolph-Wright conta que na última semana trouxe alguns amigos americanos na bagagem para que pudessem assistir aos ensaios, mesmo que não tivessem noção alguma de português. Ao se apoiar no senso de que o amor é um tema universal e na resposta favorável de seus compatriotas, ele garante que, independentemente da língua a ser trabalhada, a conexão emotiva gerada pelos atores se incumbe de garantir sentido à encenação.

O português é uma língua maravilhosa e sinto que algumas palavras garantem uma beleza extra às cenas. O roteiro e as letras são fantásticos, mas a tradução é ainda mais poética derrama-se. Tem sido uma grande diversão e honra trabalhar numa cidade onde o amor e a musicalidade fluem de cada canto, como uma espécie de infecção que percorre minhas veias.

Uma ponte no palco

Para que a produção (inteiramente brasileira) pudesse ser realizada no palco do Teatro Maison de France, uma nova mesa de som computadorizada foi comprada, assim como um sobre-palco giratório com trilhos foi construído. Ele servirá para a entrada e saída dos nove grandes cenários, que atravessam todo o palco e terão como companhia uma ponte de aço, inspirada na original do Brooklyn. Com mais de 70 figurinos, orquestra com oito músicos e oito atores-cantores-bailarinos (escolhidos entre mais de mil candidatos), Cedric Gottesman destaca a montagem como o maior investimento do espaço.

Os musicais ganham cada vez mais espaço no país. Vivemos tempos difíceis e uma boa dose de fantasia e entretenimento de qualidade é bem-vinda. Quando Tadeu me convenceu a apostar na releitura fiquei impressionado com o tamanho da produção, o que não significa que perdemos a nossa filosofia cultural. Mas a Broadway definitivamente chega à Maison.