O primo pobre

Mario Marques, JB Online

RIO - Demarcados no meu calendário, disposto do lado direito do monitor, com uma pilot amarela, estão os dias do carnaval o meu inferno. Tempo de blocos de bêbados, sujeira nas ruas, tambores atravessando, trânsito desordenado, desfiles e bailes ou qualquer programa de TV tentando se inserir na, ahã, folia. É quando todo carioca se sente mais carioca e quando eu me sinto mais estrangeiro. É quando todo mundo combina de ficar trôpego junto.

Não sei por quê. Nunca entenderei.

Por isso essa crônica anual, sistemática. Poderia copiar a do ano passado. Mas sinto-me numa missão: achar um outro alguém, como diriam os Hermanos no começo de carreira, que me compreenda.

As pessoas fazem um roteiro de autodetonação etílica e física. Começa de manhã e a hora para terminar é aquela em que aquele último (a) amigo (a) resolve dormir. Já me ligaram às 9h30 da manhã num fim de semana, do Cordão do Bola Preta, alardeando o décimo copo de chope. O convite não era para ir para lá. Mas para um sexto bloco na Zona Sul, lá pela meia-noite pessoas que vão a blocos acordam as outras e as outras sempre agradecem. Eu não. Eu xingo.

Em 39 anos de vida errática, só me permiti um batuque uma única vez. Nos anos 90, em Salvador, a trabalho. Cobriria o trio elétrico da Margareth Menezes. Axé music, samba-reggae, suor e cerveja. Mas, com 30 minutos postado no alto do caminhão, pus-me a passar mal, uma desestruturação intestinal que me levou a ir ao banheiro contadas oito vezes. Maldito carnaval. Maldita animação forçada.

Criei então o Bloco do Eu Sozinho em Casa. Costumo trancar-me na sala, ligo o ar-condicionado, aciono o Itunes e deixo tocando as milhares de músicas que estoquei no laptop para momentos de anestesia plena como essa. Sem o desgramado do computador, cuja fonte queimou e não acho nem no Edifício Avenida Central, restou-me o DVD para este período subterrâneo de minha existência desprezível.

Planejo, então, locar uns filmes e lançar os olhos nos shows que se acumulam no armário branco. O primeiro deles é U2 live (Koalla), o primo pobre de U2 live at Red Rocks, a lendária apresentação do grupo irlandês nas montanhas rochosas do Colorado, em 1983. Está nas lojas brasileiras, em redes como as Americanas, discreto, sem badalação, no mesmo momento em que No line on the horizon, novo disco do grupo, está sendo embalado para ir para as estantes e para os HDs. O clipe de Get on your boots já está rodando por aí.

Pois U2 live foi registrado no Open Air Festival, em Loreley (região montanhosa da Alemanha, próxima de St. Goarshausen), a 20 de agosto de 1983. Dois meses depois da matriz rica. Um evento que tinha ainda Stray Cats, Joe Cocker, Steve Miller Band e Dave Edmunds. Não há créditos de nada no DVD. Nem extras. Só o show. Cujo som e imagem são precários.

São 13 faixas, a íntegra do concerto daqueles tempos: Out of control, Twilight, An cat dubh, Into the heart, Surrender, Two hearts beat as one, Seconds, Sunday bloody Sunday, The Eletric Co., Gloria, New year's day, I will follow e 40. Gravado pela WDR Television, tem sequência semelhante à dos shows daquele começo dos anos 80, as imagens estão dimensionadas por apenas seis câmeras, uma delas uma geral do lugar, lotadíssimo.

Afora todas as limitações técnicas, é um registro curioso de uma época em que Bono Vox, Larry Mullen Jr, Adam Clayton e The Edge ainda buscavam o tom certo entre música e atitude, discurso e letra. Em Two hearts beat as one e em boa parte do vídeo, Bono se movimenta, sem grades e seguranças, em frente ao público, abraça um monte, pega uma alemãzinha e dança com ela, senta nas costas de um roadie, balança desengonçado.

Com uma camisa com as cores da Alemanha, fala meia dúzia de palavras do país, anuncia Sunday bloody Sunday, que ninguém conhece. Aliás, é o show de uma banda que ninguém tem a menor noção do que é. Era, consta, a primeira vez do grupo na Alemanha. Mas cerca de 6 mil pessoas estiveram lá e aprovaram. Típico jogo ganho depois da sexta música. Tanto que em Gloria, pela terceira vez, Bono se apresenta: Somos uma banda da Irlanda chamada U2. Muito obrigado por tudo hoje .

Em Surrender, ao tentar se agrupar com a plateia, em cima de uma grade, Bono leva um estabaco assustador, de costas e de cabeça no chão. Não desiste. Volta e é ajudado desta feita por um membro da equipe.

Ao fim, com 40, o cantor e sua banda deixam o palco e passam no meio de dezenas de pessoas sem serem tocados, como se fossem um grupinho de quinta categoria. No camarim, não há uma só viva alma. Ninguém a pedir um autógrafo sequer.

Como separei uma hora da minha tarde desta segunda-feira para assistir ao vídeo, pretendo conferir em casa, com tudo fechado e o som nas alturas. Procuro ensandecidamente alternativas para o inferno. Aceito sugestões.

Todo Big Brother Brasil tem a de biquíni atochado, o nerd, o gay, o moderninho, o sem sal, a chata demais (no desta edição é a lourinha que mata formigueiro com sabão em pó) e o melhor amigo (a) da chata demais. E tem também o Pedro Bial, o julgador público do caráter dessa turma, o MC das baixarias da casa mais insensata do país. É ele quem escolhe o vilão, quem divide os matutos entre o bem e o mal. É ele o enviado do Boninho para salvar a Globo das baixas audiências. Ah, Bial. E pensar que você era um promissor jornalista.