Na era Obama, Bruce Springsteen une esperança e sofrimento

Ricardo Schott, JB Online

RIO - O passado, na verdade, nunca é passado. Ele está sempre na nossa vida diária. Pode nos pegar, nos deixar mal e acabar nos devorando , afirmou recentemente Bruce Springsteen em entrevista ao jornal britânico The Guardian, ao falar de Outlaw Pete, faixa de abertura de seu novo disco, Working on a dream. E nós vivemos um pesadelo de oito anos para cá, com uma administração cega, sem a menor consideração com o passado. Vidas foram arruinadas, coisas horríveis aconteceram porque não havia senso histórico. Não havia nenhuma noção de que o passado ainda é vivo e forte .

Outlaw Pete é justamente uma minissuíte (de oito minutos) cuja letra gira em torno de um personagem que, por mais que lute, não consegue se ver livre de sua história. E dá a cara de Working on a dream, que é inspirado, evidentemente, pela transição de George W. Bush para Barack Obama que o roqueiro apoiou publicamente. Mas não há otimismo barato em nenhuma das canções do CD. Entre melodias tristes e belas (como a de This life, cuja introdução evoca passagens de Pet sounds, clássico álbum dos Beach Boys) e letras de teor agridoce, em especial a da balada irônica Queen of the supermarket, Springsteen continua mirando o lado mais fraco da corda. E o faz com a maestria que já rendeu canções como Born in the USA, sucesso de 1985 que já foi injustamente compreendido como mera bobagem ufanista.

Homenagem a Danny Federici

No álbum, há fé e romantismo em baladas semi-acústicas, com cara de anos 60, como Kingdom of days, My lucky day e Life itself esta, com solos de guitarras associáveis a Eight miles high, hit dos Byrds. Ou mesmo na esperançosa faixa-título, uma das canções do álbum mais inspiradas pelo novo momento político dos Estados Unidos. Mas o que fica na mente são os personagens calejados e sofridos que sempre despontam na obra do compositor. Como o de The wrestler, que aparece como música bônus foi feita para o filme O lutador, estrelado por Mickey Rourke. Ou a tristeza de The last carnival, que encerra o álbum homenageando Danny Federici, que por vários anos foi tecladista da E Street Band, de Springsteen, e morreu em abril de 2008.

Em Working on a dream, o cantor associa-se pela quarta vez ao produtor americano Brendan O'Brien, conhecido por suas colaborações com bandas como Stone Temple Pilots e Pearl Jam. Não há muito do peso dos grupos com os quais o produtor colaborou. O autor de álbuns como Nebraska e Born to run continua eternamente um cronista musical voltado à união de referências de bardos folk, Bob Dylan, Beatles e Roy Orbison (uma de suas maiores influências). E, mesmo antevendo a esperança, prefere cantar um passado de lutas que nunca cessam.