Homenageado em Berlim, Chabrol conta como foi filmar com Depardieu

Carlos Heli de Almeida, JB Online

BERLIM - Dois cineastas franceses apaixonados pelo gênero policial exibiram suas novas crias no primeiro fim de semana do 59º Festival de Berlim. Antigo admirador das histórias detetivescas americanas, Bertrand Tavernier exibiu na mostra competitiva In the electric mist, sua estreia no cinema dos EUA, adaptação de um romance criminal de Lee Burke ambientada na Louisiana e protagonizada por Tommy Lee Jones. O veteraníssimo Claude Chabrol, por sua vez, continua fiel às suas investigações cerebrais em Bellamy, centrado na figura de um chefe de polícia de métodos e comportamento peculiares, vivido pelo lendário Gérard Depardieu, atração fora de concurso.

Bellamy descreve as férias interrompidas de um comissário de polícia que odeia a ideia de viajar durante os períodos de descanso. Durante uma breve pausa do trabalho na propriedade da família da mulher (Marie Bunel), em Nimes, Paul Bellamy (Depardieu) recebe a visita do meio-irmão inconveniente Jacques (Clovis Cornillac), um aventureiro beberrão. Ao mesmo tempo, é procurado por um homem (Jacques Gamblin) que, em fuga da mulher e da amante exigente, pode ter matado um sem-teto no processo. O projeto nasceu de um antigo desejo de Chabrol de trabalhar com Depardieu, considerado um dos atores mais excêntricos da França.

Sei que Depardieu tem a reputação de ser um profissional difícil, de comportamento bestial, mas comigo ele foi um cordeiro. Era o primeiro a chegar no set e o último a sair, estava sempre atento às obrigações e até sorria conta ao Jornal do Brasil Chabrol, homenageado anteontem com um Urso de Ouro Especial pelo conjunto de sua carreira.

Venho tentando trabalhar com ele há muitos anos, mas nossas tentativas sempre falharam. Três anos atrás, voltamos a nos encontrar e, como essa história já estava ficando ridícula, nos comprometemos a fazer um filme juntos. Bellamy, o personagem-título, foi construído a partir de facetas da personalidade do Depardieu. É um retrato dele.

Ambientado no condado de New Iberia, o filme de Tavernier acompanha os esforços do tenente Dave Robicheaux (Jones) para encontrar os assassinos de uma jovem prostituta, encontrada à beira de um pântano. O policial acredita que a morte da jovem esteja ligada às atividades de um gângster (John Goodman), um ex-colega de escola que agora investe dinheiro sujo na produção de filmes. Filmado na região afetada pelo furacão Katrina, em 2005, Tavernier atualiza para os nossos dias o romance de Burke, publicado em 1993.

Desde o início, eu sabia que precisaria fazer adaptações na história do livro diz o autor de Por volta da meia noite (1988) e A isca (1995) durante a coletiva de imprensa.

Soava incrivelmente tolo, pelo menos para mim, a idéia de ir à Louisiana filmar um romance escrito no início dos anos 90 e não acrescentar o Katrina. Minha intenção, no entanto, não era dar um tom político ou social ao roteiro. Não se pode tentar politizar um texto de Burke, que já é político.

Goodman, que mora no estado parcialmente devastado pelo furação, concordou com o diretor.

Não há intenção alguma em politizar o filme. Katrina foi um desastre natural, é um fato da vida. Temos de aprender a viver com isso observa o ator.

A trama de In the electric mist se complica com a descoberta dos restos mortais de um negro, morto ainda nos anos 60, encontrado por um astro de cinema (Peter Sarsgaard) alcoólatra, que está rodando um filme na cidade. Enquanto investiga o caso, Robicheaux tem alucinações com um general confederado da época da Guerra Civil e seu pelotão, de quem, aparentemente, recebe conselhos profissionais. De espingarda na mão, Tommy Lee Jones volta aos tipos duros e rabugentos que costuma encarnar no cinema do gênero.

Trabalhar com um ator do calibre dele foi fácil.