Dois livros narram a história da Operação Valquíria

Duílio Gomes, jornalista e escritor, JB Online

RIO - O homem mais odiado do mundo, causador da 2ª Guerra Mundial e do maior genocídio da história da humanidade, Adolf Hitler, é mais uma vez tema de um filme. Operação Valquíria (dirigido por Bryan Singer e estrelado por Tom Cruise, que esteve no Brasil semana passada para promover o filme) narra o célebre atentado contra o ditador em julho de 1944.

E a Operação Valquíria chega também às livrarias em dois livros, ambos com este mesmo título, pelas editoras Planeta (Tobias Kniebe, 320 pág., R$ 45) e Record (Philipp Boeselager, 192 pág., R$ 34).

Pela primeira, o escritor e crítico de cinema alemão Tobias Kniebe relata, com detalhes, todo o plano da conspiração em 318 páginas, erigindo o factual em ritmo de romance, com diálogos imaginários e técnica veloz de ficção. O resultado é convincente e o álbum de fotos valoriza o entrecho. Traduzido por Sandra Dolinsky, a Operação Valquíria de Tobias Kniebe mostra um Führer cheio de manias (principalmente a de perseguição), extremamente arrogante e preocupado com a própria segurança capacete e colete à prova de balas, elementos do Estado-Maior e das SS permanentemente à sua volta e refeições experimentadas antes por oficiais de sua confiança.

A derrota dos países do Eixo é esboçada já no início do livro Desde o Ano-Novo, ninguém em sã consciência duvida do destino reservado para a Alemanha. Stalingrado e a aniquilação do 6º Exército fazem com que qualquer menção à Endsieg, a vitória final, soe a deboche; Winston Churchill e Franklin D. Roosevelt anunciaram na Casa Branca o objetivo de guerra dos aliados a capitulação incondicional das potências do Eixo.

Antes do atentado da Operação Valquíria que deveria ser seguido por um golpe de Estado Hitler foi alvo de outros. Em um deles, lançaram-lhe bombas molotov em garrafas de Cointreau; em outro, um detonador foi ativado no Führermaschine o avião particular do ditador. Em ambos, e em outros, ele escapou com poucos arranhões.

Tendo em vista esses fracassos, os oficiais da resistência alemã que integraram a operação esquematizaram seu complô em dezenas de detalhadíssimos ítens e sub-ítens. O plano se concretizará no dia 20 de julho de 1944, na Prússia Oriental, mais precisamente no barracão do Estado-Maior de Hitler, conhecido como a Toca do Lobo. O coronel Stauffenberg (interpretado por Tom Cruise no filme com um tapa-olho, acessório que o coronel não tinha na vida real) será o líder da conspiração e deixará lá sua bolsa, com a bomba armada, junto ao assento de Hitler. Sairá da sala alguns minutos antes da detonação. Na bolsa estavam os explosivos e um detonador inglês, com ampolas de ácido em seu interior.

A bomba explode no momento programado, a Toca vem abaixo em destroços, várias oficiais de Hitler morrem imediatamente mas este, como por milagre, escapa ao atentado com apenas algumas escoriações e a calça em frangalhos. Irá, ironicamente, depois, lamentar a perda dessa calça nova. Sua vingança contra os conjurados será implacável.

O Operação Valquíria da Editora Record traz o depoimento do último desses conjurados, o oficial alemão Philipp Freiherr von Boeselager, que se torna o guia para entender o caso. Traduzido por André Telles e também trazendo um consistente álbum de fotos em suas 192 páginas, o volume foi lançado primeiramente na França e arrebatou elogios na imprensa ( Ótimo relato , segundo o Le Monde, e Um testemunho precioso , no Le Figaro).

Narrado na primeira pessoa, o volume reconta o plano, com detalhes que somente o autor conhecia. Patriota convicto, Boeselager passou para a Resistência alemã quando percebeu as covardes atrocidades do regime nazista contra os judeus. Em 2003, ele recebeu um comunicado do gabinete da ministra francesa para Assuntos Europeus convidando-o para se reunir com membros da Resistência francesa no ano seguinte. É que a França queria chamar a atenção do mundo por ocasião do 60º aniversário do Dia D e do atentado de 20 de julho. Segundo o autor, que foi condecorado depois com a Legião de Honra da França, a presença da última testemunha da resistência dos oficiais alemães contra Hitler devia servir à causa da amizade franco-alemã .

Era opinião corrente na Europa, em 1945, que o fato de Hitler ter escapado incólume a vários atentados sugeria que ele tivesse um pacto com o demônio. O que era apenas sugestão tornou-se, depois, aparentemente, uma verdade incontestável.

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