Obras feitas de caos e palavras

Táia Rocha, JB Online

FORTALEZA - As pinturas, esculturas e performances de Eduardo Berliner e a estética feita de letras de Rosana Ricalde garantiram a presença de dois cariocas entre os finalistas da terceira edição do Prêmio CNI Sesi Marcantonio Vilaça de Artes Visuais, cujos vencedores foram conhecidos na última quinta-feira, numa cerimônia realizada no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza. Além de Eduardo e Rosana, foram selecionados Armando Queiroz (PA), Henrique Oliveira (SP) e Yuri Firmeza (SP), que vão receber uma bolsa de R$ 30 mil, além do acompanhamento de um orientador por um ano.

Realmente não esperava ganhar, porque meu trabalho não é conhecido confessa Berliner, de 30 anos, designergráfico formado pela PUC.

O carioca, que materializa sua infância em composições caóticas e violentas, lembrou que a parceria com críticos tem um valor que ultrapassa a produtividade:

Vou me dedicar mais ao trabalho. A presença de um especialista vai fazer muita diferença, é fundamental ter com quem dialogar, já que o trabalho do artista plástico costuma ser muito solitário.

Formada em Gravura pela Escola de Belas Artes da UFRJ, Rosana, a única mulher premiada nesta edição, lembra a importância de expor em outras capitais brasileiras.

Faremos uma exposição itinerante que vai visitar cidades de todas as regiões do país. Isso é essencial, não quero só expor em lugares in. O circuito Rio-São Paulo desvaloriza alguns cantos do país, mas essas pessoas precisam de arte tanto quanto as dos grandes centros. Temos a vantagem de ter um território continental, precisamos usufruir disso.

A artista plástica de 37 anos faz das letras elementos plásticos para sua criação: poesias, manifestos, ditos populares e relatos de viagens se mesclam em desenhos, esculturas, instalações e intervenções, como na obra Marco Polo, em que cobre um globo terrestre com frases do livro As viagens de Marco Polo.

Dos 353 inscritos, 30 artistas foram selecionados para a fase final e aguardaram a premiação conhecendo o trabalho dos cinco vencedores da edição anterior, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, na Praia de Iracema, região central de Fortaleza.

Entre os felizardos do prêmio passado, estava a mineira radicada no Rio Lucia Laguna, 67 anos, que começou a pintar aos 54, e conta que o prêmio transformou sua arte.

Foi um impulso enorme para minha produção, especialmente pelo acompanhamento do orientador, Paulo Herkenhoff, que é um grande crítico e me fez várias visitas explica Lucia. Ele não me tolhia. Me ouviu muito e trouxe subsídios de outros pintores. Com a parceria, eu e minha arte amadurecemos.

Maracatu, tapioca e indicados

A cerimônia de premiação teve início às 19h30, no Passeio Público, praça no centro histórico da cidade que foi fechada para a solenidade. Cavaleiros da Guarda do Exército receberam os visitantes, que puderam apreciar várias manifestações artísticas e culturais da região, como literatura de cordel, tapioqueiras, repentistas, maracatu e até um legítimo lambe-lambe, fotógrafo ambulante da época em que não havia sequer máquina analógica.

Em seguida, a festa continuou no Museu da Indústria de Fortaleza, prédio do século 18 recentemente restaurado, com a presença do ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) e membro da Academia Brasileira de Letras, Marcos Vinicios Vilaça, pai do marchand, galerista, entusiasta e farejador de talentos pernambucano que dá nome à premiação, morto em 2000. Não por acaso, foi do ministro o discurso mais emocionado da noite:

O prêmio já é mais que uma solenidade, tornou-se uma grife. O governo deve aproveitar o caminho que Marcantonio abriu no plano internacional como empreendedor, e o melhor testemunho dessa conquista é dado hoje por artistas que tiveram seu apoio frisa.