Adeus ao talk show

Renata Leite, JB Online

RIO - Depois de 20 anos à frente dos roteiros dos programas de Jô Soares, a jornalista Diléa Frate diz que pediu um tempo para si. Aproveita as férias em Trancoso, balneário baiano, preparando-se para projetos distantes do apresentador. Entre os motivos de sua saída, sustenta que não tinha mais espaço para criar. O ritmo acelerado de trabalho na TV é coisa do passado. Recuperando sua ligação com o universo infantil, agora quer lançar um livro, fazer a adaptação de um roteiro para o cinema, produzir um piloto de programa e retomar os laços com as artes plásticas. Diléa conheceu Jô nos corredores da sede da TV Globo, em 1983. Cinco anos mais tarde, ela o acompanharia na mudança para o SBT e idealizaria o formato de talk show.

Você construiu uma carreira ao lado de Jô Soares. O que a motivou a deixar a produção do programa?

Foi muito tempo no programa, 20 anos com o Jô. Sou uma profissional de criação e quero trabalhar com criação. O programa é ótimo, se renova sempre, mas, para o trabalho que eu faço, já tinha se esgotado.

O que lhe faltava no trabalho? Oportunidade para inovar?

No Jô não há o que fazer, porque não há contestação. O formato é aquele e não é para ser mudado mesmo, porque toda a criatividade do programa se exerce dentro da entrevista em si. O mundo é enorme e tem muito o que ser feito. Então, me propus a escolher algumas coisas, dentro do leque do que eu já estava fazendo, para aprender mais. Quero poder sair um pouco do padrão.

Quais projetos planeja pôr em prática? Eles já estão em andamento?

Estou trabalhando na adaptação para o cinema de meu primeiro livro, Procura-se Hugo. Fiz a adaptação para o teatro, e a peça ficou em cartaz por um ano, passando por Rio e São Paulo. A idéia era trazê-la de volta para o Rio, mas o contrato com o patrocinador acabou. Pretendo também publicar meu quarto livro infantil. Estou desenvolvendo o piloto de um programa inovador nessa linha também, que inclui documentário misturado com jornalismo e animação.

Quando estava na produção de programas do Jô Soares, precisou deixar seus projetos infantis de lado?

Na verdade, o Jô teve grande influência para que eu seguisse esse caminho. Escrevi Procura-se Hugo antes de trabalhar com ele, mas a publicação aconteceu por acaso. Já o Histórias para acordar fiz em parceria com ele. Era um serviço telefônico, no qual as crianças podiam ouvir histórias. A gravação era na voz dele, e os textos eram meus. O serviço acabou não seguindo em frente, mas as 95 histórias viraram um livro. Ele foi traduzido em outras línguas e ganhou prêmio.

Se está desenvolvendo um piloto para talk show na TV, não pretende abandonar o veículo, certo?

Quero ampliar meu leque. Fazer cinema e outros produtos para o público infantil. Tem pouca coisa legal sendo feita para as crianças. É sempre o mesmo formato. Tudo poderia ser muito mais criativo.

A TV aposta mais em formatos de retorno garantido. Haveria espaço para o seu projeto nas emissoras?

Não sei como anda a boa vontade delas. O público é enorme para esse tipo de programa. Não tenho contrato com canal ainda, mas estou trabalhando nesse piloto com uma grande produtora paulista.

Caso uma emissora a convidasse para uma produção, aceitaria a proposta?

Dependeria muito da proposta. Do desafio do trabalho.

Desde que se formou na universidade, você trabalha com televisão. O veículo tornou-se uma paixão?

Eu gosto muito de escrever, de ter idéias. Minha paixão é isso. Não televisão especificamente. As idéias podem ser formatadas em várias linguagens, várias mídias. São só diferentes formas de se expressar.

Você acumula algumas experiências em artes plásticas. Elas te ajudam a se expressar?

Gosto muito de desenhar e já fiz alguns trabalhos, como a vaca do Cow parade, mas nunca me levei a sério nisso. Já expus trabalhos no Artes de portas abertas, no Jardim Botânico. Fazia mais quadros na universidade, mas entrei de sola no jornalismo e parei. Agora estou retomando.

Antes de Jô Soares, você trabalhou com produção em jornalismo. O que julga negativo nessas atuações?

Não gosto da correria, dos prazos apertados, de não ter tempo para elaborar a idéia. Fora o esquecimento rápido. A televisão é feita para aquele instante, diferentemente da literatura e das artes plásticas, que rendem muitos subprodutos. Você coloca no ar e o tempo leva, é a diversão imediata. Nem eu mesma lembro das coisas que fiz. É um volume muito grande, e um trabalho vai enterrando o outro. Só no Jô foram mais de 10 mil entrevistas.