O autor Javier Marías reflete em sua obra uma personalidade original

Alvaro Costa e Silva, JB Online

RIO - Javier Marías um dos mais importantes nomes da ficção europeia contemporânea não escreve no computador, não tem e-mail nem celular. Pode parecer pose desse espanhol nascido em 1951, que se autointitula rei de Redonda, uma minúscula ilha antilhana habitada por alcatrazes, e que, nas fotografias que lhe tiram, quase sempre aparece com um cigarro aceso e politicamente incorreto seguro na mão esquerda. Na verdade, o apego a uma velha máquina de escrever eletrônica Olympia, modelo de luxo, é mais um traço de uma personalidade original, que se reflete numa literatura diferente de tudo o que se faz hoje.

Gosto de escrever no papel. Enquanto me permitirem, vou continuar batucando em velhas máquinas e corrigindo à mão explica Marías no fax como de outra maneira? enviado ao Ideias, com suas respostas datilografadas onde mais? na folha em branco.

Para seus admiradores que, ao menos na Espanha, contam-se em mesmo número que os detratores; com Marías é ame-o ou deixe-o o escritor chega ao ponto mais alto da sua trajetória, até o momento, com a publicação, em três volumes, de Seu rosto amanhã, projeto que lhe consumiu nove anos e que soma mais de 1.600 páginas impressas (haja folhas em branco, coitada da velha Olympia).

O terceiro volume, Veneno y sombra y adiós, saiu em outubro de 2007, e tem tradução prevista para 2010, pela Companhia das Letras, que publicou os dois anteriores, Febre e lança e Dança e sonho.

Muita gente fala em trilogia, quando não é explica Marías. Uma trilogia se constitui de três romances distintos que têm certa unidade temática ou de atmosfera, mas que se podem ler separadamente e fora de ordem. Seu rosto amanhã é um só romance em três partes, que um dia poderá ser perfeitamente publicado num volume bastante grosso.

O tema central da obra é, numa palavra, a traição. Mas há lugar para uma infinidade de temas. Alguns deles bem atuais, como o estado de vigilância na sociedade moderna.

A maioria de nós não tem consciência de que é observada e filmada em quase todos os lugares. Ou aceita isso como se fosse natural. A prova é que muitas pessoas mantém conversas privadíssimas aos berros no celular, estejam no meio da rua ou no metrô. É como se houvesse uma mescla de despreocupação e exibicionismo. É como se não mais importasse ter segredos. E, para mim, é fundamental tê-los. É fundamental que exista uma parte de nossas vidas que permaneça desconhecida para os demais. A dimensão oculta da vida é imprescindível para que a vida seja de verdade.

Precoce, Javier Marías publicou o primeiro livro aos 19 anos, em 1971. Los dominios do lobo parodia a narrativa cinematográfica, em especial a americana clássica dos anos 30 e 40. Em seguida, veio Travesía del horizonte (1973), e dessa vez o alvo foram as narrativas de aventura no mar.

Na época, um grande amigo e espécie de mentor literário, o escritor Juan Benet - de quem a José Olympio acaba de lançar entre nós a novela Você nunca chegará a nada passou a chamá-lo de o jovem Marías , para diferenciar do pai, o filósofo Julian Marías. O epíteto, que não esconde certo tom de ironia, pegou no breu. Até hoje, há quem o chame assim, mesmo tendo sido eleito em 2006 para a vetusta Real Academia Espanhola (a ABL deles).

Depois do ambicioso e barroco El monarca del tempo (1978), que permanece como obra ainda secreta, Marías deu um tempo e dedicou-se à tradução. Foi um aprendizado a duras penas, lutando para passar do inglês para o espanhol a prosa de Robert Louis Stevenson, Isak Dinesen, Thomas Hardy, Joseph Conrad e, principalmente, Laurence Sterne (sua versão de Tristram Shandy ganhou o Prêmio Nacional de Tradução em 1979). Quando lhe perguntam sobre a validade de oficinas literárias, costuma torcer o nariz e recomendar a quem queira aprender o ofício: Traduza, traduza, traduza .

O Javier Marías de O homem sentimental (1986) e Todas as almas (1989) já é bem outro, quase lá. O salto definitivo se dá com Coração tão branco, de 1992.

Significou muito para mim. Embora não seja meu livro predileto (talvez goste mais de Todas as almas), mudou minha vida admite o escritor. Principalmente a partir do êxito enorme que alcançou na Alemanha, onde já vendeu 1,2 milhão de exemplares, mais que no meu próprio país. É, sem dúvida, meu romance mais elogiado. Como temi que se convertesse numa carga pesada demais, me apressei a escrever outro, Amanhã, na batalha, pensa em mim, que em alguns aspectos considero superior. Por sorte, acredito que não me transformei no autor de Coração tão branco . Há livros que podem virar uma espécie de maldição, mas felizmente não foi o caso.

Na esteira do sucesso, Coração tão branco foi a primeira obra de Marías a ser traduzida no Brasil, em 1995, pela Martins Fontes (recentemente relançada na coleção de bolso da Companhia das Letras). O impacto do romance pode ser explicado a partir da primeira frase (aqui na excelente tradução de Eduardo Brandão): Eu não quis saber, mas soube que uma das meninas, quando já não era menina e não fazia muito voltara de sua viagem de lua-de-mel, entrou no banheiro, pôs-se diante do espalho, abriu a blusa, tirou o sutiã e procurou o coração com a ponta da pistola do próprio pai, que estava na sala de almoço com parte da família e três convidados .

Há o mistério e o suspense por que o suicídio? O que o gesto tem a ver com os fatos que se narram no presente? que se entrelaçam com o crescente mal-estar do narrador, que goza a lua-de-mel em Havana. Mas há sobretudo a prosa hipnótica e digressiva, e um elaborado senso de humor. Uma cena inesquecível e aparentemente gratuita mostra o protagonista, intérprete e tradutor de organizações internacionais, no dia em que conheceu sua futura mulher, que tem a mesma profissão. Ambos fazem a tradução simultânea de um encontro privado entre o chefe de estado espanhol e a chefe de estado inglesa (Felipe Gonzalez e Margaret Thatcher, por supuesto, mas não nomeados). O narrador, enfadado, resolve improvisar à revelia: Diga-me, gostam da senhora em seu país? .

De 1994, Amanhã, na batalha, pensa em mim mantém o nível do romance precedente, ou mesmo o supera, como quer o próprio autor. O narrador uma característica de Marías é a primeira pessoa Victor Francés vê-se numa saia justíssima: convidado para um jantar galante em casa de uma mulher casada, cujo marido está em Londres, chega uma hora em que se encontra naturalmente no quarto dela onde, ainda meio vestida, meio despida, ela passa mal, agoniza e morre. Vindo do aposento ao lado, aparece o filho de dois anos, desperto no meio da noite. Como no anterior, a primeira frase do romance é fatal: Ninguém nunca imagina que possa vir a se encontrar com uma morta nos braços e que não verá mais seu rosto, cujo nome recorda .

A partir da segunda edição de Amanhã, na batalha, pensa em mim, foi incluída uma Nota para os amantes de literatura no fim do volume que é puro sarcasmo, quer dizer, puro Marías: O título deste romance, como o de Coração tão branco, provém de Shakespeare. Se isto nunca é dito às claras ao longo do texto é por tática proposital. Numerosos foram os críticos que, ao resenhar Coração tão branco, falaram da célebre citação de Macbeth , como se a vida inteira estivessem estado familiarizados com ela, quando essa citação nem mesmo é ou era muito conhecida. Tive a curiosidade, pois, de ver quantos sábios reconheceriam a frase que se repete várias vezes na cena três do quinto ano de Ricardo III e que é muito mais célebre que aquela outra de Macbeth. A verdade é que ninguém disse nada nos jornais de circulação nacional .

Estilisticamente, tanto em Coração tão branco e Amanhã, na batalha, pensa em mim, como no mais recente Seu rosto amanhã, sobressai uma grande influência: Henry James. Alguns críticos, principalmente nos Estados Unidos, citaram William Faulkner e Marcel Proust.

Quem sou eu para dizê-lo, falta-me objetividade - disfarça. Em todo caso, admiro muitíssimo os três autores. Mas talvez quem mais me influenciou tenha sido Laurence Sterne, cujo Tristram Shandy traduzi para o espanhol. Sterne é capaz de suspender o tempo, de ir e voltar, de espraiar-se ao longo dele com toda liberdade. De uma maneira muito humorística, que também aparece em meus livros, mas em menor escala. O que sempre me interessou nos romances é que neles existe um tempo que normalmente não podemos apreender na vida real. A duração das coisas, na memória, é muito distinta da sua duração real no presente. Nos meus romances, e em particular neste, procuro que exista esse tempo da memória.

No caso de Seu rosto amanhã, essa investigação temporal envolve Jacobo ou Jaime Deza, personagem que está de volta à Inglaterra - onde havia sido professor - tentando superar a separação da mulher. Sem querer, mas querendo, descobre um grupo de membros fundadores do Serviço Secreto Britânico que combatia o nazismo durante a Segunda Guerra e que continua em atividade, mas com objetivos que já não podem ser os mesmos. Deza, que tem dom de enxergar no rosto dos outros o que a maioria não quer ver e o que as pessoas farão amanhã, é lançado no meio de uma aventura de espionagem fantástica que, esta sim, não poderá prever aonde o levará.