Grupo Love Trio: do jazz ao dub, com passagem pela MPB

Ricardo Schott, Jornal do Brasil

RIO - O saxofonista Ilhan Ersahin, nova-iorquino de ascendência turca, não gosta de recordar o 11 de Setembro. Mas, liderando hoje os projetos Wax Poetic e Love Trio que podem ser vistos neste sábado, respectivamente, encerrando, como a banda surpresa, o festival Humaitá Pra Peixe na Sala Baden Powell e no projeto Studio RJ, no Cinematheque recorre à data como marco de grandes mudanças não só na cidade como também em sua vida profissional.

Proprietário também do bar selo Nublu, que lança discos de música brasileira e mantém uma brazilian night às quartas, Ersahin diz que os ventos que sopravam na América na época lhe inspiraram.

Minha terra partiu de uma era em que só se pensava em dinheiro. E chegou a uma outra em que se queria algo mais amigável, mais local recorda o músico, de Nova York, ao Jornal do Brasil.

Nesse espírito, resolvi montar uma casa para tocar o tipo de som que eu e meu amigos gostávamos. Queríamos fazer experimentações e lançar artistas. Cerca de 16 nomes saíram de lá.

Otto e Thalma no palco

Ambos os projetos do saxofonista chegam perto do inclassificável. O Love Trio, tem um núcleo duro com Ersahin, o baixista Jesse Murphy e o baterista Kenny Wollesen, além de um punhado de convidados entre DJs e vocalistas. Todos sob o signo da influência do mestre do dub jamaicano U-Roy.

Parceiro de infância de nomes como Bob Marley e Peter Tosh, ele é a maior influência do som que o saxofonista apresenta com seus dois camaradas no palco do Cinematheque.

Gravamos nossos primeiros CD com ele. Mas depois fizemos um outro mais voltado ao jazz e ao som dos clubes diz o músico, sem esconder o apreço pelas jams.

É um som que fazemos pelo amor e pela diversão em tocar. Demos a cara da Nublu, porque passamos a tocar lá e as bandas que vieram depois nos seguiram.

O Wax Poetic, que divide com Thor Madsen (guitarra e beats), Jesse Murphy (baixo), Jochen Rueckert (bateria), e Marla Turner (vocais) é considerado um grupo de trip-hop.

E de jazz, por manter improvisações em shows e em gravações, e por ter revelado Norah Jones, que cantou lá até se lançar em carreira solo, em 2002.

Para o show do HPP, convidaram o guitarrista Gabriel Muzak (da banda Rockz) e, nos vocais, Thalma de Freitas e Otto. O pernambucano divide o palco nos outros shows que o grupo agendou em São Paulo (na quinta-feira), Florianópolis (dia 11) e Curitiba (dia 13).

É o projeto no qual eu trabalho junto com vocalistas. O primeiro registro vocal da Norah, por exemplo, foi conosco: Angels recorda ele, que para tal projeto, conta com outra grande influência, só que do jazz: Miles Davis é um dos meus heróis. Temos canções, mas muito do nosso som vem do improviso, que é melhor do que ensaiar um álbum e tocá-lo da mesma maneira sempre.

Curador do HPP, Bruno Levinson diz estar curioso para ver o Wax Poetic ao vivo.

Quero bastante ver a Thalma cantando com eles. O WP é uma banda que sempre traz a música de cada lugar por onde eles passam afirma o produtor, que para o show, manteve, como em 2008, o preço do ingresso à escolha do público.

É uma maneira que encontramos para aguçar a curiosidade das pessoas que vão ao nosso encerramento.

O saxofonista já veio a São Paulo com outro de seus projetos, a Nublu Orchestra, dividindo o palco com músicos como Nina Becker (vocais) e Marcello Callado (bateria, também integrante da banda Cê, de Caetano Veloso).

O baiano, por sinal, já foi atração do bar Nublu, assim como Jorge Ben Jor, Gilberto Gil e até o Mamelo Sound System. Já o selo se responsabilizou por obras de artistas como Karina Zeviani (cantora brasileira que participou da temporada Obra em progresso, de Caetano, no Vivo Rio), Forro In The Dark (formação brasileira que defende o ritmo nordestino nos EUA) e 3namassa.

Além de projetos globalizados como a dance music do Brazilian Girls e os sons eletrônicos do Istambul Sessions. Para maio, preparam o novo disco de Otto.

O Nublu Orchestra é metade brasileiro, metade nova-iorquino, o que torna tudo uma grande experiência. Há muitos brasileiros na minha vida. Sempre que vou a Florianópolis toco com amigos diz o músico, que considera seu som um produto global.

Nem penso em culturas ou países quando faço música. Acredito nas leis do mundo e da natureza, que são mais interessantes do que se fechar numa determinada cultura.