Carlos Cuarón fala sobre 'Rudo y Cursi', sua estréia em longas

Myrna Silveira Brandão *, Jornal do Brasil

PARK CITY, EUA - O fim de semana trouxe a Park City a efervescência habitual nesta época do ano, com a alta temporada de esqui e a multidão que se desloca para cá para o Festival de Sundance.

O movimento de turistas deu novo ânimo à mostra, já que alguns distribuidores e exibidores se mostram cautelosos por causa da crise mundial, além do fato, muito comentado nos bastidores do evento, de que a imprensa internacional está mais voltada para a posse de Barack Obama, que acontece nesta terça-feira.

Fora do burburinho, o destaque latino foi o mexicano Rudo y Cursi, do roteirista e diretor Carlos Cuarón, irmão de Alfonso Cuarón. O diretor chega aqui com o peso do sobrenome, mas nem precisava: seu filme tem luz própria e trouxe muitos ingredientes para garantir a sessão lotada na mostra Première.

Além da presença nas telas dos protagonistas Gael García Bernal e Diego Luna, a história mistura com equilíbrio esporte, sexo, humor e drama. Rudo y Cursi é uma hilariante comédia dramática sobre dois irmãos, unidos na busca de uma vida melhor, e rivais nos caminhos para consegui-la.

Os irmãos Beto (Luna) e Tato (Bernal) trabalham numa plantação de bananas e jogam futebol num time local. Beto é um goleiro temperamental, que ganha o apelido de Rudo e sonha em se transformar num jogador profissional.

Tato, apelidado de Cursi, quer ser um cantor famoso. Ambos dividem o sonho de construir uma casa para a mãe, Elvira, mas as coisas estão difíceis, até que surge Batuta (Guillermo Francela), um caçador de talentos.

Para desgraça de Beto, é Tato quem ganha fama no campo e se transforma num astro. O êxito, a fama e a rivalidade colocam os irmãos numa luta que ultrapassa os limites dos campos de futebol.

Após a sessão, que teve a presença de Bernal, o Jornal do Brasil participou de uma entrevista para um pequeno grupo de jornalistas, com os irmãos Carlos e Alfonso Cuarón e Guillermo del Toro, um dos produtores do filme.

Rudo y Cursi é um filme sobre relacionamento entre irmãos, assim como eu e Alfonso. O futebol é apenas pano de fundo. destacou Carlos.

E há tantos filmes sobre futebol que, neste caso, procuramos ver o seu lado mais dramático em vez da atuação dos jogadores. O pênalti, por exemplo, é como um duelo num filme de faroeste e essa metáfora está lá.

De forma lbem-humorada, Rudo y Cursi é uma crítica social que levanta questões como tráfico de drogas e falta de oportunidades.

O filme é uma sátira à vida dos mexicanos complementou Alfonso, referindo-se às pressões a que os dois irmãos são submetidos quando tentam abandonar a plantação de bananas em busca de um futuro promissor.

A busca constante pelo sucesso foi outro ponto que o diretor quis abordar.

Vivemos sob enorme pressão, o que torna a vida vazia. Nessa procura, muitas vezes nos defrontamos com situações muito adversas, a que precisamos nos submeter opina Carlos.

No filme, como na vida real, o traficante é sempre o mais forte. E isso, no México, é assustador, porque ele compra tudo, inclusive os sonhos das pessoas.

Os pontos de contato com o brasileiro Linha de passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, que também aborda o futebol como forma de mobilidade social, são ignorados por Carlos, que não vê semelhanças profundas entre as duas obras.

Linha de passe é um belo filme, mas a abordagem é bem diferente frisou o diretor.

A única coisa parecida é que, nas duas histórias, a solução vem através de um pênalti.

Falando sobre o cinema no México, Del Toro disse que os filmes de seu país vivem hoje num verdadeiro gueto.

Travamos lutas diárias para tentar recuperar posições internacionais e até mesmo nacionais, mas as coisas ainda são muito difíceis lamentou o produtor.

* Especial para o Jornal do Brasil

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