Mostra 'Corpo humano' leva 150 mil ao MHN e vence enquete no JB

Clara Passi, JB Online

RIO - A morte caiu bem em 2008. A mostra Corpo humano: real e fascinante, que levou 16 cadáveres e 225 órgãos ao Museu Histórico Nacional, no Centro, desbancou vultos das tintas como o lituano Lasar Segall e o integrante da Missão Francesa Nicolas-Antoine Taunay; o fotógrafo das celebridades David La Chapelle e os novos artistas da arte contemporânea, concentrando o maior número de votos na enquete promovida pelo Caderno B.

No ano que a Bienal de São Paulo intitulada oficialmente Em vivo contato, sob curadoria de Ivo Mesquita e Ana Paula Cohen fez de sua 28ª edição uma alegoria do vazio, deixando o segundo andar do Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Parque do Ibirapuera, deserto e escalando apenas um terço do elenco de artistas presentes na edição anterior para questionar seu papel como feira de arte e romper com modelos estabelecidos, o público parece não ter dado muita bola para reflexões artísticas viscosas. Preferiu se chocar com esqueletos reais e até fetos embalsamados só imagináveis em livros de anatomia, que, submetidos a um processo químico, voltaram à vida para exibir a maravilha que é o funcionamento do organismo humano até os mínimos vasos sanguíneos.

Mostra enaltece vida e saúde

Depois de ser vista por mais de 450 mil pessoas em São Paulo em 2007 e passar por 33 cidades mundo afora, os 16 cadáveres e 225 órgãos chegaram ao Rio em 27 de setembro e estavam programados para ficar só até 14 de dezembro. Mas foi prorrogada para 1º fevereiro devido ao sucesso até agora, 150 mil pessoas visitaram a edição carioca.

O número de visitantes é muito expressivo para o Rio. Superou todas as expectativas. Os visitantes elogiam muito, levam catálogo, que serve ainda como livro de anatomia diz Stephanie Mayorkis, produtora da mostra em São Paulo, que se lança no mercado dos grandes eventos com a versão carioca.

Stephanie ressalta ainda o grande número de visitas escolares.

Fiquei feliz ao ver muitas crianças de escolas públicas.

O esquema, no início, foi digno de show da Madonna: ingressos a indigestos R$ 40, vendas antecipadas pela Ingresso Rápido e em lojas Modern Sound e filas que serpenteavam pela Praça Marechal ncora. As férias escolares ganharam uma colher de chá: bilhetes à metade do preço às terças-feiras.

O custo de produção foi alto, a alta do dólar não ajudou e montei a exposição sem patrocínio. O público está comparecendo, apesar do preço diz Stephanie, que classifica a promoção das terças-feiras como um presente para a cidade . Queremos dar acesso à população que não pode pagar o preço integral, dar oportunidade de conhecer o Museu Histórico Nacional. Quem compra ingresso para a Corpo humano tem acesso gratuito às outras atrações do museu.

Inglaterra, Coréia do Sul, México e Holanda já abrigaram a mostra, criada por Roy Glover, professor de anatomia e biologia celular da Universidade de Michigan.

Mais de 10 milhões de visitantes e mais de 500 mil estudantes comprovam o êxito da mostra, que usa corpos para enaltecer a vida e a saúde disse Glover ao Jornal do Brasil.

Os corpos de indivíduos que, na iminência de morte natural, optaram por participar de um programa de doação conduzido pela República Popular da China foram submetidos a uma técnica de polimerização, que lhes deu aparência e textura de plástico. O procedimento foi supervisionado por Glover (também diretor-chefe do Laboratório de Preservação Polímera da universidade).

A exposição, de tom didático (compara-se um pulmão saudável com um de um fumante e um coração sadio com um enfartado) replica o furor que causou em Berlim a Körperwelten (Mundo dos corpos), em 2001, na qual o médico alemão Gunther von Hagens esculpiu sua arte em 200 cadáveres reais.

Entendo por que muitos vêem a exposição como arte. O funcionamento do corpo é pitoresco comenta Glover.