Massimo Canevacci: 'O pornô perdeu a grafia'

Juliana Krapp, JB Online

RIO - O antropólogo italiano Massimo Canevacci quer libertar o fetichismo do uso tradicional, estigmatizado, ao qual a palavra tem sido atrelada. Para encarar o que ele chama de novos fetichismos aqueles entrelaçados à cultura visual e digital, cujas possibilidades se colam ao olhar alheio seria preciso aceitar um desafio metodológico: permitir que o próprio desejo penetre no radar das ciências sociais, e que estas assumam de vez a dimensão sensorial de seu ofício.

São idéias como essas, que apontam para o nexo crescente entre corpo e metrópole, que o pesquisador desenvolve em Fetichismos visuais: corpos erópticos e metrópole comunicacional (Tradução: vários. Ateliê Editorial. 336 pág. R$ 45). Na cidade para o lançamento do livro, surpreendeu a platéia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro com uma palestra audaciosa, que tem apresentado mundo afora: enquanto explica no púlpito conceitos como bodyscape ( corpo panorâmico que flutua entre os interstícios da metrópole comunicacional ) e atratores ( códigos visuais de alto valor fetish ), sua mulher, a coreógrafa paulista Sheila Ribeiro, interpreta no palco, ao fundo, o próprio fetiche contemporâneo. Semi-nua, vagando entre perucas coloridas e poses sensuais, calçando e descalçando sapatos, Sheila evoca as próprias sensorialidades multi-comunicativas e multi-seqüenciais da metrópole.

O senhor diz que é preciso deslocar o lugar da perversão.

É que o conceito de perversão usado pela psicologia e pela psicanálise para curar algum comportamento não funciona mais. Pois ele tem sido usado para individualizar não só o fetichismo, mas algum tipo de prática sensual fora da normalidade e normalidade é um conceito complicado, pois ninguém sabe o que é normal e o que é anormal. Freud o usou num sentido neutro, sem a vontade moral de dizer que algo é errado. Mas conservamos a visão de uma patologia perversa, a respeito sobretudo de fetichismos visuais, que não funciona mais. Por isso temos que aceitar um desafio sobre o conceito, a categoria, a metodologia. Para tentar desenvolver não apenas um novo pensamento, mas também uma nova maneira de penetrar no fetichismo contemporâneo. Por exemplo: para Freud, só os homens eram fetichistas. A mulher era apenas objeto desse fetiche. Mas não é assim. A dimensão fetichista penetra tanto no universo masculino quanto no feminino. Precisamos da mistura de várias disciplinas para dar uma solução diferente à proliferação do fetichismo visual que testemunhamos hoje.

O senhor fala também de um estupor metodológico . Do que se trata exatamente?

A história das metodologias das ciências sociais é baseada em uma neutralidade na maneira de relegamento dos dados e da reflexão. Isso claramente não funciona, e desde o seu início. A dimensão do estupor, do espanto, do stupore italiano é como eu encaro um posicionamento da subjetividade. Que é porosa, aberta a não somente encontrar, mas também a ser penetrada por um evento desconhecido. E muito da comunicação, da arte e do design contemporâneo é desconhecido. E também desejado. O estupor é como colocamos nossa corporalidade num limite instantes antes da chegada de uma coisa totalmente desconhecida e totalmente desejada. Que é desejada, aliás, porque é desconhecida. Este para mim é o problema.

Quer dizer então que o desejo entra no método?

Entra, a questão é essa: a pesquisa tem desejo. No fetichismo visual eu tenho um desejo ambíguo, ambivalente e complexo no objeto de minha pesquisa. Não mantenho o olhar neutro, mas sim fui penetrado pelo poder fetichista da imagem. E isso é perturbador, é um desafio. Então tentei vislumbrar esse tipo de emoção como o avanço de uma metodologia e de uma conceituação. Mistura-se uma dimensão sensorial, ou melhor, multisensorial, com a perspectiva de uma nova racionalidade. É a polisensorialidade misturando elementos de uma maneira muito híbrida, plural, sincrética e polifônica. Isso apresenta uma nova maneira não só de entender, mas de elaborar um método compositivo. Meu desafio é que eu não posso mais só falar sobre a minha pesquisa. Eu tenho a necessidade e também o desejo de multiplicar os códigos narrativos que uso.

Ao falar sobre cidades, o senhor destaca que espaços aparentemente marginais são, na verdade, uma ponta de diamante em direção à metrópole comunicacional. Como assim?

Em primeiro lugar a cidade não é mais baseada na indústria, que não é mais o centro da produção de valor econômico e de valor no sentido antropológico. Além disso, a idéia dualista de centro e periferia não funciona mais: ambas se misturam constantemente. Vejamos o Rio de Janeiro: claramente a periferia e a favela também estão no centro. Mas também porque os códigos mais inovadores, do lado da música, do estilo da roupa, do corpo, são elaborados na dita periferia. E muitas vezes é ela que constrói o centro. A metrópole é muito mais um estar em movimento, uma transição, um transurbano. E nesse movimento transurbano há alguns espaços que eu chamo de interstícios, e que às vezes não são explícitos. São pouco visíveis, mas têm a capacidade de antecipar o sentimento mais amplo da cultura metropolitana. Cabe ao olhar etnográfico, que tem esse tipo de capacidade de entender, verificar onde se criam os interstícios. Porque um interstício pode durar uma noite, um mês, um ano. Não é definitivo. A beleza da dimensão intersticial da metrópole é esse tipo de mudança transurbana. Por isso é preciso o olhar contínuo, nunca parado, sempre atento à mudança do corpo da metrópole.

Esse interstícios são eróticos?

Muito. Essa dimensão da eróptica [como o autor gosta de usar em sua obra] não é ligada somente ao corpo no sentido clássico. Interstícios têm uma dimensão eróptica porque procuram uma coisa para além da contemporaneidade. A distinção entre a eróptica e a sensualidade é que esta última é sempre genital. Já a eróptica poderia ser genital, mas tem uma força além da genitalidade, e envolve também um tipo de espaço intersticial. Nele, a experiência da ligação entre o meu corpo, o corpo de um objeto e o corpo da arquitetura me puxa na direção de uma eróptica ainda percebida mas não totalmente concluída, conhecida, que não é ainda revelada. Você percebe que está acontecendo uma eróptica perturbadora, na qual talvez você penetre, você conheça, e inevitável. A eróptica é sempre uma lei.

O senhor também diz que o pornográfico se transformou em pornô. Por quê?

A pornografia era ligada à escritura: daí vem o sufixo grafia. Havia o exercício de um desenho. Mas o que era pornográfico há 10 anos agora é normal. O que acontece hoje é que a pornografia perdeu a grafia, o lado da escritura. E é cada vez mais pornô, porque é comunicação digital. O pornô é visual, não precisa elaborar a dimensão escrita. Essa mistura de pornô e digital transforma o que é pornografia em uma coisa completamente visual, que tem autonomia comunicacional, que não precisa mais da escritura. Não cabe em nossos tempos um escritor pornográfico como Henry Miller, que escrevia pornografia nos anos 30 para ganhar dinheiro. Agora a escritura pornográfica acontece no site you porn (), onde cada pessoa pode se filmar em uma posição erótica. Mas isso é pornô, não pornográfico.

Em seu livro o senhor faz inúmeras referências ao diálogo entre Walter Benjamin e Theodor Adorno. Por que eles são ainda tão atuais?

A discussão entre Adorno e Benjamin [na década de 30], sobre a questão da obra de arte, onde mostravam posições totalmente diferentes, eu diria antagônicas, antecipava muita coisa, e justo naquele momento trágico [o Holocausto]. Já ali os dois estavam tentando enfrentar o que estava mudando sobre o conceito que virou depois indústria cultural. Essa mistura de industrial e cultural e, como diz Benjamin, de comunicacional a reprodutibilidade, como ele dizia é a cultura digital. A comunicação digital é ao mesmo tempo aurática e reproduzível. Isto é, a distinção de Benjamin a obra de arte tem uma aura original, e o cinema e a fotografia não têm, porque se reproduzem esse tipo de dualismo positivo é unificado na cultura digital, cuja mensagem parece ser: seja original e aurático, e seja reproduzível.