Lilia Moritz Schwarcz é a 'Mulher de Idéias' de 2008

Alexandre Werneck, JB Online

RIO - É raro um intelectual ter os braços de Lilia Moritz Schwarcz. Ela é ao mesmo tempo editora (de não-ficção da Companhia das Letras, maior casa de publicações do país, dirigida por seu marido, o escritor Luiz Schwarcz); professora (titular, da Universidade de São Paulo, onde leciona desde 1998); historiadora (formada em 1980 pela USP); antropóloga (com uma carreira que coloca em questão a questão racial e a história do país); coordenadora de pesquisa; curadora (da exposição Nicolas-Antoine Taunay no Brasil: uma leitura dos trópicos); agitadora cultural (como organizadora, ao lado do acadêmico Alberto da Costa e Silva, das celebrações dos 200 anos da chegada da família real ao Rio). Não bastasse isso, publica. Livros. Artigos. Gibis. Seu O sol do Brasil: Nicolas-Antoine Taunay e as desventuras dos artistas franceses na corte de D. João foi uma das mais importantes contribuições a atravessarem o país em memória do período joanino. Para o Idéias, aliás, foi o mais importante lançamento de não-ficção do ano. O alimento disso tudo? Pensamento, claro. Não foi à toa, então, que ela foi escolhida Mulher de Idéias 2008, a primeira em 21 edições da distinção desde 1987 (com pausa em 1991; veja a galeria completa na página 3) conferida pelo caderno ao intelectual brasileiro de maior destaque no ano. Reconhecimento para uma carreira ao mesmo tempo na vanguarda acadêmica e nas bocas do popular (sem abrir mão da inteligência).

Não é uma caminho planejado e nem mesmo um exemplo a ser perseguido. É apenas um percurso que pode ser visto hoje, depois de vivido diz Lilia, voz tranqüila, 51 anos completados exatamente neste sábado, à mesa de sua bela casa, livros por todos os lados, na aprazível vizinhança de Pinheiros, capital paulista. Eles moram ali há décadas. Hoje, só o casal e o filho mais novo, já que a mais velha, Julia, editora da Companhia das Letrinhas, junto de Lilia (sim, ela também lida com literatura infantil), se casou, mudou-se e deu a eles a primeira neta, Maria Isabel. A morada fica a meio caminho entre a editora (no Itaim) e a USP (na Zona Oeste) e testemunhou grandes conquistas da família.

Entre elas, a fundação da Companhia das Letras, em 1986, a entrada de Lilia na USP e sua consagração como acadêmica. Reconhecimento que lança luzes sobre a personalidade múltipla apontada acima. Lilia é professora de antropologia que brinda os alunos com cursos em que usa pintura, mesma arte que a animou à pesquisa com Taunay e a missão francesa que resultou no livro e na exposição (de 200 obras dele) lançada em maio no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio, e que depois partiu para a Pinacoteca do Estado de São Paulo, onde ficou até setembro. Fosse em que meio fosse, o trabalho do artista francês que virou seu personagem serviu de porta de entrada para uma compreensão do grande a partir do pequeno, de uma série de fenômenos importantes para mais de uma sociedade como a construção do Brasil que nascia com a chegada da família real e a França, que se refazia depois da derrota napoleônica a partir de objetos da cultura produzida nesse encontro. Algo que não seria possível sem uma capacidade de administrar várias gavetas acadêmicas, um malabarismo raro atualmente.

Essa figura do grande intelectual, do professor que tudo sabe, está cedendo lugar para o especialista. É algo positivo por um lado, porque aprofunda as pesquisa, mas por outro retira justamente esse caráter universal, amplo, do pensamento diz ela.

Grandes intelectuais

Mas para o último Homem de Idéias, Alberto da Costa e Silva, totalmente de acordo com a escolha feita pelo júri interno do Idéias, que define a colega de comissão dos 200 anos como trabalhadora infatigável Não sei onde ela arranja tanto tempo! esse movimento de intelectualidade ampla dela tem mais a ver com um sacerdócio da autora:

Essa é a tradição do pensamento brasileiro, na verdade. A especialização é que é a novidade. Ela é positiva, mas sem perder a visão universal. O que Lilia faz é manter acesa a chama dessa tradição.

Muitos acadêmicos costumam dizer que escolheram a carreira por acaso. No caso de Lili, como é chamada pelos amigos, essa explicação não deixa de ser verdade. Pode-se mesmo dizer que ela ter virado historiadora foi um erro .

Eu queria fazer vestibular para ciências sociais, mas preenchi errado o formulário. Quando me dei conta, tinha passado para história relembra ela, rindo.

Pois o desvio acabou se tornando caminho. Ela optou por ficar no curso e se formar historiadora. Depois, quando chegou à pós-graduação, seguiu para a antropologia (na qual é mestre e doutora). Isso criou uma esquina interessantíssima em sua obra: o olhar microscópico da abordagem antropológica encontra o macroscópico habitual da historiografia. Entre a micro e a macro-história, ela tem uma visão peculiar a respeito do tempo. Para ela, a antropologia permite uma visão da história que ultrapasse a mera descrição dos grandes fatos.

Busco uma história que não caia no fascínio dos eventos. Em geral, a antropologia busca as categorias que dêem conta dos outros, dos estranhos, e acho importante buscar as categorias que nos definem a nós mesmos. E certamente que história e tempo são duas das principais e usualmente nós as naturalizamos.

Personalidade

Quando recebeu a notícia de que receberia o reconhecimento do Idéias, Lilia abriu um sorriso. De alegria e... estranhamento. Afinal, ela é a primeira mulher a ser escolhida... Homem de Idéias . Mulher de idéias, ela não deixa de contextualizar o fenômeno no quadro da academia brasileira:

Isso obviamente diz mais do Idéias e da própria academia brasileira do que de mim. Mas acho que todos concordamos que demorou muito para isso acontecer, o que mostra que ainda há preconceitos, mesmo no mundo intelectual brasileiro.

Há muito tempo reclamo de a seleção nunca ter escolhido uma mulher e até do título Homem de Idéias. diz o historiador e cientista social José Murilo de Carvalho, ganhador da escolha de 1989. Ele contém um bias preconceituoso. Esta escolha sem dúvida indica um progresso.

Em todas as civilizações, as mulheres sempre fizeram o trabalho pesado e nós, homens, sempre fingimos que trabalhávamos brinca Alberto da Costa de Silva. Com esse passo, estamos nos afastando de um protecionismo masculino.

No que é seguido por outro laureado, o de 2002, o filósofo Leandro Konder, colunista do JB:

Não podíamos forçar, mas sempre torcemos pela escolha de uma mulher e isso nos mostra como estamos evoluindo.

Mas mulher ou homem, a personalidade de idéias e vai aí a sugestão para novos tempos de 2008 é antes de tudo uma escolha por sua excelência acadêmica. Faz história juntando-se a outra. Desde que começou, em 1987, a escolha variou algumas vezes entre o colegiado de ex-ganhadores e a comissão de jornalistas da casa, esta último adotada atualmente, desde 2006.

E desta vez amplamente celebrada pelos Homens de Idéias ouvidos. Entre eles o primeiro, coincidentemente ninguém menos que Luiz Schwarcz, marido de Lilia, diretor da Companhia das Letras.

Ela está ganhando o prêmio pela segunda vez. diz ele. Quando eu ganhei, ela era a força por trás do primeiro Homem de Idéias.

Os dois se conheceram quando tinham ele 13 e ela 11 anos, em uma colônia de férias. Reencontraram-se dois anos depois e desde então estão juntos. E juntam livros. Leitora voraz, seja de literatura como o Jó: romance de um homem simples, de Joseph Roth, que eles lançaram há pouco e que ela devora neste momento seja de teses e trabalhos de alunos ela é uma das professoras com maior número de orientandos na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP ela se encarregou de fazer de estantes a peça de mobília principal da casa. Por isso mesmo, impressiona, em sua fala e sua obra, o quão fácil é o trânsito entre os mundos que administra.

Lilia é um daqueles entre nós que melhor tem combinado a abordagem antropológica com a historiografia, sobretudo por meio dessa explosão da história cultural, que tem permitido algo multidisciplinar elogia José Murilo de Carvalho.

O trabalho dela é positivo nesse sentido diz Konder. Temos a tendência a manter as discussões nos gabinetes e ela desenvolveu maneiras de levá-las para o mundo.

O que conduz para uma peculiaridade da lista de Homens de Idéias: observada ano a ano, ela chama a atenção para nomes posicionados mais à esquerda, reconhecidos por forte posicionamento público, como o próprio Leandro Konder. Não que Lilia não tenha posições políticas pelo contrário, ela ressalta mas sua imagem tem estado mais associada a sua produção pública do que a suas opiniões públicas:

Nós acadêmicos não podemos nos furtar a nossa participação cidadã e é claro que nossas posições devem ser emitidas. O que me preocupa é quando se começa a se dar opinião sobre qualquer coisa. Certamente que no caso desses grandes intelectuais críticos não é esse o caso, mas é um risco que todo acadêmico corre se não tomar cuidado.

Opiniões pesadas, Lilia Moritz Schwarcz segue com sua produção que soma, ainda é tempo de listar, obras como a biografia As barbas do imperador : D. Pedro II, um monarca nos trópicos (1998) ou A longa viagem da biblioteca dos reis (de 2002), no qual explora a reconstrução do acervo da Real Biblioteca de Lisboa, destruída por um terremoto em 1755 pensando em uma nova empreitada intelectual: quadrinhos. Depois de ter publicado, em 2007, com o cartunista Spacca a HQ D. João carioca, e da alegria de publicar (este ano) seu queridíssimo Tintin, ela prepara o lançamento do selo Quadrinhos na Cia., que vai publicar duas dezenas de títulos nos próximos dois anos, obras de nomes como Will Eisner e Art Spiegelman e uma HQ escrita pelo romancista Daniel Galera.

Adoro quadrinhos! Sem querer desvalorizá-los, é algo que preciso ler entre um livro e outro, para espairecer diz a Mulher de Idéias.