Inspiradas em ex-stripper, escritoras tiram a roupa em microcontos

Anna Carolina Braile, JB Online

RIO - Esta é uma história real. Diablo Cody, a vencedora do Oscar de melhor roteiro de 2008, por Juno, estava prestes a completar 25 anos e ainda se sentia uma adolescente com formigas na calcinha. Medo de cruzar a fronteira para o lado negro dos 20 anos e perder a última chance de fazer uma grande loucura sem ter que lidar com responsabilidades da vida adulta. Para fugir do tédio, decidiu tirar a roupa em bares sujos de Minnesota rebolando por notas de 10 dólares e passando noites em claro agarrada a um poste, ou qualquer coisa vertical e dura, depois escrever o livro Minha vida de stripper, ganhar o tal prêmio da Academia de Ciências e Artes Cinematográficas de Hollywood e, e aí sim, fazer a vida valer a pena.

Longe de ser uma diva do sexo, Diablo não é o tipo que chama a atenção ao atravessar a rua e jura no livro que, até ter decidido virar stripper, nas horas vagas era praticamente beata. Afinal, nunca havia andado de moto, engravidado por acidente ou feito um aborto, jogado bebida na cara de alguém no meio de um porre, roubado batom de uma loja bacana. Pior: recebeu cada um dos sacramentos católicos, com exceção do matrimônio e da extrema-unção, e terminou a faculdade em exatamente oito semestres. Podia sentir meu fogo apagando. Minha crise dos 25 anos pesou no estômago como um cheeseburguer duplo. Acho que esta é uma das razões para eu ter acabado seminua numa boate , escreve no livro, em que conta absolutamente tudo sobre a experiência, que deve ser muito mais interessante que fazer mochilão pela Europa, intercâmbio na Nova Zelândia, cortar o cabelo curtíssimo, ou essas coisas que as garotas com medo de chegar aos 30 costumam fazer.

Dá até vontade de seguir as sugestões da moça. Literalmente. Ela lista as 10 melhores e piores músicas para tirar a roupa a melhor fica com Remix to ignition, de R. Kelly, seguida por Purple rain, do Prince: Arqueie suas costas como se o próprio Prince estivesse derramando glitter no seu abdômen. Tem mais efeito em lojas de suco quase vazias, que promovem uma atmosfera emocionante , escreve. Será? Acho que não... O fato é que Diablo vive com a mesma intensidade com que escreve. O característico humor ácido, rápido e pra lá de moderninho de Juno é usado com a ousadia de quem passa longe de ser uma diva do sexo, mas tem coragem de leiloar a própria calcinha ao som de Honky tonk woman, dos Rolling Stones, ao mesmo tempo em que trabalha como redatora em uma agência de publicidade. E ela conta tudo sobre a indústria do sexo pago, com os mínimos detalhes. Talvez picantes até demais, mas que nas palavras de Diablo soam mais como conversa de garotas moderninhas que papo de filme pornô.

Pois foi com esse espírito, digamos, com a Diablo Cody no corpo, que convidamos escritoras brasileiras para se despirem de moralismos e se sentirem na pele de uma stripper. Em microcontos de cerca de 20 linhas, nossas divas deveriam escrever experiências de um striptease. A poeta Maria Rezende levou a brincadeira para o lado romântico, sem deixar de ser exibida. A consagradíssima Ana Miranda transforma o ritual em sagrado, praticamente místico. A autora teatral e romancista Manoela Sawitzki imagina, da sacada de um apartamento, a negociação com o contratante do serviço. A sempre moderna Ivana Arruda Leite faz uma enfermeira tirar o uniforme ao som de Roberto. Todas elas e Diablo colocaram em suas personagens a adrenalina pulsante de quem expõe suas maiores vulnerabilidades em público.

Vejamos:

Perninhas felpudas

Por Diablo Cody

Diamante e eu subimos para o segundo andar a fim de praticar movimentos no poste. Ela parecia a miss Perfeição Adolescente com a sua imensa cortina de cabelo louro e liso e biquíni verde-grama. Não achava que tinha aparência má. Interiormente hostil? Definitivamente. Mas eu tinha decidido que meu rosto era uma máscara convincente de sensualidade beatífica. A miss América adolescente se agarrou a um dos postes e tentou escalá-lo com seus exclusivos sapatos de festa brancos. Ela prontamente deslizou para baixo e perdeu o equilíbrio. Com suas perninhas felpudas cambaleantes, ela me lembrava o Bambi.

Ai... disse ela.

Deixa eu tentar disse eu, executando um giro desajeitado. Estava surpresa com o quanto era difícil. As garotas no palco sempre pareciam tão lânguidas e leves quando trabalhavam com o poste. Ao contrário, meu corpo parecia um saco antropomórfico de merda de gato molhada. Eu mal conseguia levantar meu próprio peso para sair do chão.

Deve ter um macete pra fazer isso. (...)

Assim, começaram as minhas funções no Big Pink. A primeira coisa que percebi era como as garotas dançavam de maneira diferente do Schieks. Elas não apenas ficavam completamente nuas, mas faziam shows ginecológicos completos.

Exibida

Por Maria Rezende, autora de 'Bendita Palavra'

Desci as escadas como se entrasse num palco. A luz de emergência pareceu concordar, acendendo bem na hora em que entramos, canhão de luz insuspeito. O cenário era limpo: nada de objetos, nenhum figurino. A platéia lotada era você descendo comigo os degraus, você, o homem antigo, o mesmo homem por tantos anos desejado e ainda tanto ali naquela hora, na feiúra nua daquela parte dos edifícios que não é feita pra aparecer. Eu sou feita pra aparecer , pensei. Exibida, desde pequeninha, e de repente o que era ofensivo ( Não sou exibida! , eu gritava entre lágrimas de humilhação) virava fonte de poder. A alça da blusa escorregou de leve ombro abaixo e seu olho ávido abriu num só lance meu sorriso e o zíper da saia. Subi três degraus pra mostrar melhor as pernas enquanto o tecido escorregava, e me abaixei pra tirar a sandália sem perder de vista seu rosto, meu aplauso em palco aberto. Exibida , você dizia no silêncio do tesão contido, e desabotoando o soutien eu te respondia num êxtase sem palavras: Sim, meu amor, exibida, exibida! .

Amina dança para Flaubert...

Por Ana Miranda, autora de 'Desmundo'

...dança é uma contemplação do interior da selvageria do corpo haialaia das nostalgias da memória, a encarnação da infinita luxúria, a obediência à paixão e ao perverso temperamento feminino, Ai quer sabe? Eu vai, tomei duas taças de árak e voltei ao meio da roda, vendei os olhos dos músicos, não sabia o que ia dançar, não sabia mesmo, não tinha a intenção de dançar a al nahal, mas por que então vendei os olhos dos músicos? e dancei, fechei os olhos e vieram os camelos famintos na areia da Síria, a pelugem ferida, mulas mortas cobertas de poeira, cães que pareciam chacais que vinham à noite aterrorizar com o uivo aaauuuuuu, carcaças de asnos, camelos mortos, risadas de camelos comidos pelo rakham ukab amarelo, abri os olhos e vi, ele jogou dinheiro aos meus pés, eu pisei o dinheirinho, fui de um a outro lado no kanon, pandeiro, nái, fazia ele virar a cabeça, um cachorrinho olhando sua dona, veil violeta, correntes tauxiadas correndo minha pele cabila, fazia ele olhar meus braços e mãos e pagar a peso de ouro sua fraqueza, sem ter piedade dele, dançarina de nenhuma maneira pode responder por palavras, assim com a dança como sei de falar, sua aparência era mais de idolatria que de verdadeira religião, daqueles que trazem por morder os dentes, por atacar, facas brancas escondidas nas botas, dancei até o fim a al nahal na largueza das carnes e ele foi ficando bêbado daquilo, ele viajou no Egito, no Marrocos, em Alger, viu trance, baladi, Fatima, sword dance em Jericó, cerimônia zaar ou gargabus ou stambali, dança de bem estar que repete o sacrifício da jovem que seu sangue se transforma em flor vermelha que se dança girando sobre os pés paticatuuuuu tuuuuu tuuu tac tac o passo deve ser ágil como pisasse em brasas, tudo o que se faz de tradição é sagrado...

Baby it's you

Por Manoela Sawitzki, autora de 'Nuvens de magalhães'

É mole, princesa. Tu sobe lá, bem na manha, bem sensual, e vai tirando.

Não sei se entendi direito, eu...

Mexerica.

O quê?!

Tu vai ser a Mulher Mexerica.

Oi?!

Vai descascando, tranqüila... Compreendeu? Só na sensualidade... Cleidson, arruma um proibidão maneiro pra princesa aqui.

Não, eu... É que eu tinha pensado em... Eu trouxe uma música assim, mais tipo... Smith, conhece?

Do MC Smith?

- Não! A banda americana& Baby it's you. É super sensual... Dos anos 70. O Tarantino até usou em...

O cafetão, se houvesse um, me olharia atônito antes de repetir anos 70 num tom debochado. Talvez cederia. Afinal, eu, uma universitária, naquele balaio infestado de Copacabana, querendo viver um dia de stripper. Talvez o primeiro de muitos. Talvez, se me tratasse direito, o início de empreendimento longo e lucrativo. Somente uma questão de me fazer emborcar três ou quatro doses de vodca nacional, lambuzar a boca de vermelho paixão, repetir palavras doces e irresistíveis para a moral feminina como princesa, deusa e gostosa-pá-caralho. Cara de santa estava em falta na praça desde 2003. Tem quem entregue a chave do carro em troca de uma legítima santinha como eu.

Queria pensar em algo mais Paris e menos Rio de Janeiro, num cafetão com feições de Alain Delon, não do verdureiro da esquina. Mas fracasso até na fantasia e preciso confessar: não tenho alma de stripper. Deve existir uma vocação que implica em gostar de lingeries minúsculas que pinicam, banhos de sol diários e mega hair. Ou talvez seja isso, apenas esta noite, eu sozinha na sacada de um apartamento de fundos, esvaziando mais uma taça de vinho, a música no repeat... Many, many, many nights go by& Luzes apagadas, olhos fechados, duas e meia da manhã, talvez algum vizinho insone, talvez só o Cristo me vendo deixar cair o vestido, ficar nua do lado de fora: aqui vai meu striptease para o suposto estranho na janela, para os morcegos de Copa, para ninguém, para mim: não para ele. Nunca mais para ele... Many, many, many nights go by, I sit alone at home and cry over you&

Stripper

Por Ivana Arruda Leite, autora de 'Falo de mulher'

Quando eu cheguei do trabalho e vi a Marly dançando pelada em frente ao espelho achei que ela tava bêbada.

Tô ensaiando ela me disse séria e sóbria. Vou fazer teste pra stripper numa boate. Quer vir também?

No começo eu achei um absurdo. Imagina, dançar pelada pra um monte de homem. Jamais eu teria coragem.

É um dinheiro no mole ela disse. De segunda a sexta, um show de meia hora por noite: um salário mínimo mais ticket. Muito mais fácil do que o trabalho no hospital.

É verdade. A gente ganha isso pra limpar merda e mijo de doente oito horas por dia. Um trabalho limpinho desse, deve ser uma maravilha. O problema é que a Marly tem um corpão. Quem vai querer ver uma gorda barriguda como eu dançando pelada?

Deixa de ser boba. Tem tara pra tudo. Você só tem que providenciar o figurino. A fantasia é por sua conta.

Com que roupa você vai fazer o teste? eu quis saber.

Com essa aqui ela disse, mostrando o uniforme engomadinho.

Sua louca! Se alguém descobre...

Bico calado! Enfermeira faz o maior sucesso em show de stripper, não sabia, não?

Ela colocou o CD do Roberto e ensaiou o número pra mim. Fenomenal. A saia pregueada, a blusa, o sutiã (um sutiã lindo de rendinha), a cinta-liga, a meia-calça e a calcinha de strass, desse tamainho.

Tá na cara que você vai ser contratada!

Hoje a Marly faz mais de dez shows por noite. Sai de uma boate e entra em outra. Largou o hospital faz tempo. Virou a estrela das boates do quarteirão. De vez em quando ela ainda insiste pra que eu faça o teste. Assim, num lugar público, eu não tenho coragem. Mas confesso que também peguei um uniforme na rouparia e todo dia, quando ela sai pra trabalhar, faço meu número na frente do espelho. Com sutiã de renda, calcinha de strass e tudo. Um arraso.