As cartas de Frei Betto mantêm o frescor da boa literatura

Marisa Lajolo*, JB Online

RIO - São quase 200 as cartas que, entre 7 de dezembro de 1969 e 25 de setembro de 1973, Carlos Alberto Libanio Christo escreveu para a família e para amigos. O interesse excepcional de tais missivas é que seu remetente Carlos Alberto é Frei Betto, que as escreveu e enviou da prisão. Na época da correspondência, ele era um jovem e inédito dominicano, perseguido e preso pela ditadura brasileira como tantos outros, religiosos e leigos.

As cartas que a editora Agir lança agora em volume único Cartas da prisão (1969-1973) tiveram um percurso rocambolesco: grande parte delas saiu clandestinamente dos presídios, papeluchos escritos à mão, enrolados e escondidos em cintos e tubos de pasta de dentes. Entregues por portadores corajosos a seus respectivos destinatários, as mensagens foram, depois, recolhidas, datilografadas em estêncil, mimeografadas, e uma cópia delas clandestinamente levada para a Itália por Maria Valéria Rezende. Acabaram chegando à editora Mondadori, que com elas fez o livro Dei soterranei della storia.

Ou seja: a estréia literária de Frei Betto deu-se no gênero epistolar e fora do Brasil. Ponto para a Itália, de onde as cartas ganharam mundo, alimentando em diferentes línguas as utopias libertárias que, na esteira do Maio de 1968, foram o sonho sonhado por tanta gente.

Para além da história do livro, tão cheia de riscos e generosidades, as cartas que Cartas da prisão reúne representam, como registra seu autor na introdução, um documento histórico (....) retrata as duras provações a que foram submetidos os presos políticos bem como as lutas de resistência travadas dentro da prisão . Lidas dessa perspectiva, elas efetivamente documentam um modo precário e truncado de vida a cujo relato, no entanto, a profunda religiosidade de seu remetente imprime um tom narrativo que mergulha na indignação da denúncia, na solidariedade aos injustiçados e despossuídos, na serenidade de uma fé que parece a toda prova.

Para a geração que leu o livro em sua primeira edição brasileira os volumes Cartas da prisão (1977) e Catacumbas (1978) refazer hoje a leitura é uma experiência que abala e emociona. Não se larga o livro. Trinta anos depois e, mesmo com as muitas obras publicadas sobre o período, as cartas de Frei Betto guardam intocada a força que comunicavam naqueles anos cinzentos. A ditadura nos fazia ler o livro editado pela Civilização Brasileira como gesto de solidariedade e resistência, o qual se praticava olhando por sobre o ombro para ver quem estava a nosso lado. Reler hoje estas cartas nos devolve um pouco do que éramos há muitos anos...

Mas, ao lado disso, as cartas nos mostram também a formação do escritor Frei Betto. Em várias passagens, a minuciosa narração do dia-a-dia do cárcere aproxima-se do romance: o leitor vive a greve de fome, entusiasma-se com os gestos da resistência possível e se comove com a pureza da alegria de um pedaço de céu noturno entrevisto da cela.

Em algumas cartas sobretudo duas dirigidas ao irmão caçula Tunico e outra para a sobrinha Juliana a prosa epistolar abre espaço para o lirismo. A propósito de uma história de cometa, de outra história de reis e de uma terceira de anjos-da-guarda, as cartas abandonam o reino deste mundo e voam alto para as regiões da mais pura poesia. Reencontramos nestes momentos e em alguns outros o magnífico narrador de Treze contos diabólicos e um angélico (2005) ou a voz lírica que ressoa em A arte de semear estrelas (2007). Tratam-se, pois, de cartas que, compostas por detrás das paredes altas de celas numeradas do Presídio Tiradentes, do Carandiru ou da Penitenciária de Presidente Venceslau, ao ganharem o mundo sob a forma de livro, abrem ao leitor veredas e caminhos de leitura e de vida.

Uma dessas veredas bem pode trazer para este fim de ano a alegria corajosa com que Frei Betto celebrou o Natal de 1970: Estamos em tempo de festas. Tempo de confraternização num mundo dividido. Tempo de alegria, onde há tantas lágrimas. Tempo de amor sobre ódios que atrasam os tempos. Tempo de presentes em meio a tanta solidão. Nessa contradição descubro o sentido do Natal. Cristo vem, justamente, estabelecer a paz onde há guerras, pregar a justiça onde há opressão, promover a unidade onde há desencontros . Que assim celebremos todos os que crêem e os que não crêem.

*Professora de literatura da Unicamp e da Universidade Presbiteriana Mackenzie