O ano da reverência a Milhazes e Cildo

Clara Passi, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO -

Foi o ano em que o mundo se curvou de joelhos diante da produção artística contemporânea brasileira. Pode soar ufanista. E é. Mas o abstracionismo geométrico e milionário da pintora Beatriz Milhazes e a consagração do escultor Cildo Meireles na Tate Modern, em Londres braço de arte contemporânea da tradicional Tate Gallery permitem, sim, arroubos de orgulho nacional. A dupla de ouro está na ponta da língua de especialistas provocados a enumerar as estrelas e astros das artes plásticas de 2008.

Beatriz, carioca integrante emérita da Geração 80, tornou-se a artista brasileira viva a alcançar o maior valor por uma obra num leilão de arte internacional, batendo seu próprio recorde num leilão de arte, quando O mágico (2001) foi arrematado pelo magnata argentino Eduardo Constantini (dono do Abaporu (1928), de Tarsila do Amaral) por US$ 1,049 milhão, em maio, na Sotheby's de Nova York. Depois de exibir suas explosões coloridas numa individual na galeria James Cohan, no Chelsea nova-iorquino (que rendeu a ela loas do jornal The New York Times), ter instalação exposta no Museu de Arte Contemporânea de Tóquio e ter feito obras em espaços públicos (como uma estação de metrô em Londres e uma interferência na fachada de uma loja de departamento em Manchester), a última grande exposição por aqui foi na Pinacoteca do Estado, em São Paulo. Beatriz exibiu uma intervenção nas 10 janelas do espaço, que variam ao longo do dia conforme a luminosidade externa, além de pinturas e colagens realizadas desde 1990.

Beatriz foi quem mais brilhou. Ela encabeça, disparada, minha lista diz o presidente da Bolsa de Arte do Rio, Jones Bergamin.

Bergamin destaca ainda outra vedete das artes plásticas nacionais. Adriana Varejão inaugurou no Centro de Arte Contemporânea Inhotim a Galeria Adriana Varejão, em março, um espaço concebido para receber as obras da artista, que participou do projeto arquitetônico. Aberto ao público em 2006, em Brumadinho, (MG), Inhotim é um dos museus mais visitados do país.

Adriana ajudou a construir uma obra suntuosa, um investimento de muitos milhões de dólares enaltece Bergamin.

Outro nome que está na ponta da língua de Bergamin, da marchand Soraia Cals (dona do Soraia Cals Escritório de Arte) e da crítica de arte e ex-diretora da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Luiza Interlenghi, é Cildo Meireles, laureado com o Prêmio Velázquez de Artes Plásticas, um dos mais prestigiosos do mundo, concedido em fevereiro pelo governo espanhol.

Cildo é unanimidade

A sétima edição do prêmio foi dado a Meireles por um júri unânime em reconhecimento à sua trajetória artística, anunciou à época o ministro espanhol da Cultura, César Antonio Molina. A premiação de 90, 4 mil euros (R$ 300,6 mil) contempla também a apresentação de uma exposição do brasileiro no Museu Nacional Centro de Artes Rainha Sofia de Madri, em 2010.

Foi às margens do Rio Tâmisa, entretanto, que, aos 60 anos, Meireles coroou uma carreira de quatro décadas dedicadas à arte conceitual, sedimentando seu nome no panteão dos artistas plásticos mais relevantes da atualidade. A individual aberta na Tate Modern em outubro reuniu 80 trabalhos e foi a primeira desta magnitude no Reino Unido. A invasão londrina não parou por aí: naquele mesmo mês, o Chelsea College of Art & Design abrigou a instalação Ocasião (nunca antes mostrada no Brasil, exibida apenas na Alemanha, em 2004) e a própria Tate recebeu a escultura Malhas da liberdade . Ele, que expôs fora do Brasil pela primeira vez em Nova York, em 1970, embarcou com suas instalações para Barcelona, Houston, Los Angeles e Toronto.

Cada peça que levo para a Tate daria uma exposição diferente. Há grandes instalações, ocupações, desenhos, espaços virtuais. É difícil criar condições no Brasil para mostras deste porte disse Meireles ao Jornal do Brasil, por telefone, de Londres.

Completam a lista de highlights dos especialistas a Arco, feira espanhola que homenageou o Brasil, em fevereiro; o boom da arte cinética ( foi o grande must deste ano, o estilo mais procurado e valorizado, junto com a arte geométrica , comenta Bergamin) e o leilão de peças do enfant terrible britânico Damien Hirst, que reinventou as regras do mercado de arte em setembro. O artista, um dos mais valorizados de todos os tempos, causou polêmica com seus tubarões embalsamados em formol, e entregou para leilão na Sortheby's londrina 218 obras que renderam a ele US $ 201 milhões. Foi a primeira vez que um artista dispensa o meio-campo das galerias.

Luiza Interlenghi grifa a individual de Hugo Houayek na Amarelonegro Arte Contemporânea, em Ipanema, até o início deste mês, como uma das mais importantes do ano. E aposta nele suas fichas para 2009.

Nelson Leirner passou pela vitrine da galeria e ficou boquiaberto diz ela, que saudou também a abertura da Galeria Progetti, na Praça XV, pelas mãos de galeristas italianos Paola Colacurcio e Niccolò Sprovieri com a mostra de Jannis Kounellis, em julho.

Carlos Vergara que exibiu suas monotipias na coletiva Missões no Paço, no Paço Imperial, e brincou com a fotografia digital em Hüzün, no Oi Futuro João Modé, único brasileiro escalado para a Bienal de São Paulo deste ano; Laura Lima, ganhadora do Prêmio Marcantônio Vilaça, os leilões de obras de arte de Jorge Amado e Lily Marinho, a mostra de Carlos Zílio, que abriu a Anita Schwartz Galeria de Arte, na Gávea, também se sobressaíram.