'É samba na veia', é escolhida a melhor peça do ano

Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Embalado como um bom samba batido na palma da mão. Foi assim, com aplausos e cliques, que fãs e comunidades da Internet se mobilizaram em uma grande roda virtual em torno do espetáculo É samba na veia, é Candeia, escolhido pelos leitores do Jornal do Brasil como o melhor do ano, em votação online iniciada há duas semanas. Vencedora da Seleção Brasil em Cena 2007, concurso nacional de dramaturgia promovido pelo Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), a adaptação para o palco da vida do sambista é a estréia vitoriosa do dramaturgo Eduardo Rieche nos tablados (leia mais na página B3).

Na Seleção Brasil, a peça também foi escolhida por votação do público e do júri. Entre 12 finalistas, fomos escolhidos após uma leitura dramatizada. Parece que somos bons de voto brinca o autor.

Com o projeto sob a cartola, Rieche passou seis anos tentando, sem sucesso, viabilizar seu plano. Com o prêmio em mãos, a partir de dezembro de 2007, seis semanas de ensaio e mais seis em cartaz no CCBB foram o bastante para sedimentar uma temporada expressiva, acumulando cerca de 5 mil espectadores. Sucesso que busca repetir a partir de janeiro, quando a peça migra para o Centro Cultural Veneza, em Botafogo.

Muito da força da peça vem da música de Candeia, é claro. Mas aliadas à riqueza de suas criações estão as histórias de sua vida, igualmente marcantes compara o autor. O legado da sua vivência é posto no mesmo patamar da obra; as canções têm o mesmo peso que o texto. É um personagem de carga dramática intensa. A emoção do público navega nesses dois sentidos.

Tragédia e música

Paralisado após ter sido atingido por um tiro na espinha, o portelense Antônio Candeia Filho (1935-1978), um dos maiores ícones do samba carioca, fez da sua cadeira de rodas um verdadeiro trono. Sentado, mas não imóvel, com seu violão ou cavaquinho em punho, tratou de movimentar e unir os sambistas à sua volta, lançando discos e canções fundamentais para a história do gênero, como Axé (1978) e Pintura sem arte, respectivamente. Fundou uma escola de samba que se tornaria a mais tradicional da cidade, a Quilombo, cujo manifesto anunciava:

- Escola de samba é o povo na sua manifestação mais autêntica. Quando o samba se submete a influências externas, a escola deixa de representar a nossa cultura.

Sou um apaixonado pela sua obra e idéias. Pela maneira como defendia suas tradições. Acho que conseguimos passar essa dimensão e sensibilizar o público acredita o dramaturgo.

Ao pegar emprestada a história para adaptá-la ao palco, o diretor André Paes Leme fez do tablado um terreiro e transformou o espetáculo numa espécie de reduto para os adoradores do ritmo. Acomodados em mesas e servidos de um tradicional feijão amigo, os espectadores são transportados para dentro do quintal da casa de Candeia. Participam, assim, de uma verdadeira roda de partido alto e, ao mesmo tempo, vêem contada a história do bamba politizado que lutou pela consciência negra.

Ele sempre reunia as pessoas em sua casa. Queríamos trazer esse grau de intimidade da forma mais honesta possível explica Rieche. Por isso, dispensamos cadeiras e arquibancadas optando por mesas em volta do palco. Fizemos da sala uma espécie de quintal, onde o público vivencia a tradição dos subúrbios, sua música e comida.

Interpretado pelo ator Jorge Maya, que acumula a experiência de ter vivido nos palcos outro baluarte do samba, Geraldo Pereira, o compositor ganha vida como um visionário que previa desde o começo da década de 70 a derrocada da tradição dos desfiles das escolas de samba.

Candeia previa que essa celebração, a princípio tão fincada em origens populares, se transformaria no espetáculo que vemos hoje, onde o sambista deixa de ser figura principal critica Maya. Fazer Candeia é um desafio e uma oportunidade única. Sinto que ele precisa estar ainda mais vivo no imaginário das pessoas.

Apesar dos recursos modestos da produção, Maya diz que o empenho incansável em reviver o personagem valeu a pena. Comprar, literalmente, o barulho de uma grande obra, escrita por um dos artistas mais importantes da música brasileira, fez o ator se redescobrir como artista e ser humano.

Ao viver Candeia, sinto que estou no melhor momento da carreira. Não é sempre que temos um personagem negro tão forte para celebrar. Como o Otelo de Shakespeare, dada as devidas proporções, Candeia também é um personagem único e real justifica.

Em um ano de muitos musicais, É samba na veia, é Candeia uniu o teatro à expressão musical mais popular da cidade: o samba. Combinação que fez o artista ter nos palcos seu merecido Dia de graça.

Sucesso é importante, mas o que nos orgulha é poder reavivar sua raiz poética e cultural para um novo público. O musical cumpre bem esse papel, pois, do Maracanã aos quintais espalhados pela cidade, é através de música que as pessoas se comunicam diz Maya.