Filha de imigrantes transforma preconceito em livro

Bolívar Torres, JB Online

RIO - Vencedora do prestigiado prêmio Orange, um dos principais de língua inglesa, a escritora britânica Andrea Levy é uma artista marcada pela questão da identidade. Nascida de pais jamaicanos, que emigraram para Londres em 1948, a autora absorveu desde pequena o choque de culturas, refletido em toda sua obra e em especial no romance A pequena ilha, com o qual conquistou alguns dos principais prêmios da literatura inglesa em 2004.

Recém-lançado no Brasil, o livro se inspira livremente na epopéia de seus pais para tecer uma reflexão ao mesmo tempo cômica e dramática sobre os conflitos da imigração e os dilemas das minorias étnicas.

É difícil explicar por que a imigração é tão difícil para as pessoas admite Andrea, em entrevista por telefone ao Jornal do Brasil. As dificuldades surgem para os dois lados, é uma negociação tanto para quem chega quanto para aqueles que recebem. As pessoas reagem a mudanças.

Quando os pais de Andrea se mudaram para a Inglaterra encontraram um cenário muito diferente do que esperavam. Como colônia, a Jamaica sempre sofreu uma influência decisiva da sua pátria-mãe. No colégio, alunos cantavam o hino inglês e cresciam com a idéia de que a Inglaterra era o paraíso.

Narrativa dividida

Herói de guerra, seu pai achou que seria aceito imediatamente por aqueles que haviam colonizado sua terra. Deparou-se, porém, com a miséria do pós-guerra. Se os pais mantiveram o amor pelo país natal, guardando parte de sua cultura, o mesmo não aconteceu com a autora, que cresceu perdida entre as suas origens e as peculiaridades inglesas.

Até hoje, imigrantes ainda têm problemas na Inglaterra observa Andrea. Sentem-se rejeitados, mas aceitam a condição de serem britânicos negros como um fato da vida. Mas as coisas melhoraram desde a minha época e a dos meus pais. Atualmente, há uma legislação que proíbe o racismo. Há mais nuances e negociações nessa questão.

A trajetória inicial dos pais de Andrea é muito parecida com a dos personagens de A pequena ilha, que recupera o final da década de 40, quando a Inglaterra ainda se reerguia dos efeitos da Segunda Guerra Mundial e o processo de descolonização mundial se acelerava. Depois de lutar com a Força Aérea Britânica contra os nazistas, o jamaicano Gilbert Joseph muda-se para Londres com a sua mulher, Hortense. Na cidade devastada pela guerra, os dois enfrentam a intolerância e racismo, incluindo os de sua própria locatária, Queenie, que os aceita em meio à miséria e à ausência do marido, Bernard.

Andrea divide a sua narrativa em quatro, dando voz a todos os

protagonistas.

Comecei a escrever a narrativa na terceira pessoa, mas era como se houvesse um abismo entre eu e a história revela a autora. Eu queria sentir a narrativa na primeira pessoa, mostrar a situação sob o ponto de vista de cada personagem. Escrever dessa forma é um pouco como atuar. É preciso estar em sintonia com o personagem, entendê-lo, até poder ver tudo pelos olhos dele.

Visão equilibrada

Mostrando a imigração sob diversos pontos de vista, Andrea oferece uma abordagem complexa do choque cultural. Se a Inglaterra a pequena ilha em questão, mas que também poderia ser a Jamaica aparece descrita como um lugar tomado pelo preconceito, é também lá, porém, que a escritora encontra exemplos surpreendentes de tolerância e compaixão.

Os personagens apresentam múltiplas facetas. Bernard, por exemplo, o marido racista, pode dar mostras de lealdade e amizade nos momentos mais críticos.

Quis evitar a todo custo personagens estereotipados frisa Andrea. Não queria que fossem a representação disso ou aquilo. Queria que tivessem lados positivos e negativos como todos nós.

O fato de ter sofrido na pele alguns dos problemas descritos no livro, no entanto, não dá margem a qualquer ressentimento, já que a autora apresenta uma visão equilibrada e racional do conflito. Incentivada por seus pais, a hoje premiada escritora venceu todas as barreiras impostas por sua condição e poderia ser considerada um modelo e parâmetro para as conquistas dos imigrantes. Mas ela refuta a idéia com veemência:

Não me considero um modelo de nada. Tudo na vida é uma questão de circunstâncias. Tudo é dinâmico. As coisas aparecem e você tem que lidar com elas.

A maneira serena de enfrentar as múltiplos aspectos da vida se reflete no tom generoso de A pequena ilha, que abraça comédia e tragédia com a mesma intensidade.

Até na tragédia há risadas lembra. Algumas pessoas decidem que a vida tem que ser feliz, trágica ou dramática... Eu não acredito nesses estados de espírito definitivos. Na vida você tem comédia, tragédia, romance, é tudo junto. Essa é a condição humana. E se você escreve sobre pessoas, isso vai aparecer.