Documentário retrata era de ouro do tango e sua descoberta

Carlos Helí de Almeida, JB Online

RIO - Em 2005, o produtor musical argentino Gustavo Santaolalla, ganhador do Oscar de Trilha Sonora por O segredo de Brokeback Mountain e Babel, reuniu alguns dos melhores músicos, compositores e intérpretes de tango para a gravação de um CD e a realização de uma série de shows.

Coube ao diretor Miguel Kohan a tarefa de registrar essa reunião em Café dos maestros, documentário que chega aos cinemas no momento em que a juventude argentina redescobre o ritmo como símbolo cultural. Co-produzido pela brasileira Videofilmes, o longa é uma das estréias do feriado de Natal no circuito carioca.

O tango nunca morreu, apenas foi mal interpretado conta o cineasta Miguel Kohan ao Jornal do Brasil, por telefone, de Buenos Aires.

Jornal do Brasil: Seu primeiro filme é um documentário para a TV sobre os trabalhos em uma mina de sal. Como entrou para um projeto sobre tango?

- Já havia trabalhado com o Gustavo (Santaolalla), produtor do projeto, antes. Dirigi um videoclipe para uma das músicas dele. Quando comecei a editar Salina grande, mostrei para ele, que gostou muito. Quando o Gustavo resolveu registrar a gravação do disco sobre tango, me chamou.

Jornal do Brasil: Ser um diretor convidado limitou sua liberdade de ação?

- Quando entrei para o projeto do filme, Gustavo ainda estava na fase de gravação do disco. A idéia era usar a liberdade que o documentário dá para capturar aquele momento, transitar entre os maestros. Era uma fase mais de observação do que qualquer outra coisa. Eu entrei justamente para isso, fazer o documentário; o Gustavo cuidava apenas da produção musical, não interferia nas decisões cinematográficas.

Jornal do Brasil: Qual foi o aspecto mais desafiante do documentário, o logístico ou o humano?

- Na verdade, todo o projeto foi um grande desafio. Foi a primeira vez na historia da Argentina que todos os mestres do tango se reuniram para um projeto comum. Era uma experiência intensa e emotiva estar com esses artistas. Eles têm uma forma única de transmitir a música que fazem, uma espontaneidade muito particular da época em que eles brilharam. Esses mestres trabalharam a vida inteira se apresentando para o público, são artistas que se formaram no contato com as platéias, não em estúdio de gravação. Mas foi justamente essa espontaneidade na gravação que ajudou a dar veracidade ao filme. Foi contagiante para mim e para a equipe.

Jornal do Brasil: Personagens e canções não são identificadas no filme, só nos créditos. Por que esta opção?

- Não dava para fazer um documentário didático sobre o tango. Lembro de uma frase do Michelangelo Antonioni que só compreendi nesse trabalho: Os filmes não são para serem compreendidos e sim vivenciados . Café dos maestros é a prova disso. É a impressão em filme dessa convivência com eles.

Jornal do Brasil: Qual a sua relação pessoal com o tango?

- Nos anos 70, escutava tango, como um tangueiro, mas não era um fã. Lembro de uma piada que o Caetano Veloso soltou num show a que assisti aqui em Buenos Aires, naquela década. Ele parou a apresentação para avisar que iria cantar um tango. O público reclamou muito e então ele comunicou: Já que é assim, agora vou cantar cinco! . Obviamente que na segunda canção as pessoas já estavam adorando o que ele estava cantando. Naquela época, os jovens não aderiam ao ritmo, porque era um tipo de música associada à ditadura, o que era, evidentemente, uma má interpretação do gênero.

Jornal do Brasil: Qual é a relação dos jovens de hoje com o tango?

- Os tempos mudaram. Café dos maestros chega aos cinemas em um tempo de revitalização do tango. É conseqüência da crise econômica de 2001, quando a sociedade argentina se abriu mais para a própria cultura. E esse fenômeno não é geracional, é geral, envolve jovens e velhos. Na era do apogeu do tango, nos anos 30 e 40, as pessoas se sentiam incluídas na cultura argentina, mesmos os imigrantes. Café dos maestros testemunha essa redescoberta.